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sábado, enero 19, 2008
O assalto
Não era nada fácil para Thompson ser assaltado por uma garota linda, no dia do Natal. Uma garota linda. Isso era o mais curioso. Ele foi assaltado por uma apaixonante garota. Enquanto a jovem gritava, apontava a faca, e fazia ameaças, tudo ao mesmo tempo, com uma dureza de fazer os nervos tremerem, ele, estarrecido, apenas olhava para os lhos da jovem, negros e profundos, piegas como a noite, com um brilho escondido lá no fundo, que só um aspirante à escalador de montanhas poderia receber. Ela pegou o dinheiro, os documentos, o brinco da orelha esquerda, e o colar cristão que fora de sua avó, mas que não valia nem um centavo.
“Feliz Natal!”, ele gritou animado enquanto ela saía. Ela, por sua vez, se misturou à multidão nas ruas abarrotadas da cidade. Thompson ficou parado, com cara de bobo. Havia se apaixonado por uma batedora de carteiras, e isso era tão inexplicável, tão anormal, to absurdo, e tão... Tão maravilhoso. Quem em são consciência não perderia a consciência diante da penosa e arrebatadora paixão de instantes, o falsamente chamado “amor à primeira vista”. Ele a perseguiu por uns tempos, mas a perdeu de vista. Desde então, não andava mais na rua da mesma forma. Sempre buscava aquela fronte branca, de cabelos negros curtos, de olhos grandes.
Após o natal, o Ano Novo estava chegando, e toda a movimentação para o Réveillon começava. O herói, jovem, de cabelos castanhos, passava os dias abatido, sonhando com a dócil algoz. A vida só não começava a perder o sentido por que ele conhecia bem tudo aquilo, mas, mesmo assim era impossível não sentir um alento ansioso no coração, a cada respiração. Ela havia sumido. Talvez morta, desaparecida, procurada pela polícia. Justo ela, que se tornou tão importante para ele. Onde morava? Como se chamava? Será que a polícia tinha alguma informação, afinal de contas, na esperança de encontrá-la, ele havia prestado queixa. E nem se lembrou do brinco de prata que lhe havia sido tirado. O brinco era o que era, mas ela podia valer ouro.
Quando a tristeza suave que mordiscava seu forte coração como um peixe carniceiro parecia, então, quase ter partido, deixando o espaço vago de uma fantasia não realizada, que bem poderia ter sido um sonho o jovem recebeu a ligação de um policial, que havia encontrado seus documentos com uma jovem que acabara de ser presa por invasão a domicílio. Um balão parecia se encher no seu peito. Talvez fosse sua chance. Iria finalmente encontrá-la. Sabia que a conhecia de algum lugar e não sabia de onde, e isso também o afligia (eu me esqueci de mencionar esse detalhe). Pois bem. Thom iria salvá-la. Outro detalhe: ele não sabia que era aspirante a escalador de montanhas. Como já foi explicado em um outro texto, isso é perfeitamente plausível.
Na delegacia, ele prestou depoimento, pegou seus papeis de volta, e pagou a fiança da criminosa. A polícia, obviamente, não compreendeu. Mas, o amor não deve ser compreendido. Não é mesmo. Ele simplesmente é. Ele simplesmente chega sem avisar, e leva um pedaço de você com ele. Como em um assalto. Era dia 31. Ele pediu que ela o seguisse, e, em um misto de gratidão e de querer se ver longe da delegacia, Maria depositou uma confiança que não sabia que tinha, e seguiu sua antiga vítima. Entrou em um carro bem conservado, limpo e quente, bem diferente do frio da rua. A mesma que, estranhamente, ela não havia conseguido esquecer, e que surpreendera procurando na rua por alguém fugidio e misterioso por mais de uma vez.
Quando estavam a alguns quarteirões, finalmente aquele evento surreal incorporou-se ao Planeta Terra e ela de conta que estava em um carro, com um homem desconhecido, que podia levá-la para onde quisesse. E ela não ia deixar isso acontecer. Quando ia protestar, no entanto, foi interrompida por uma voz firme e mansa, como a de m leão saciado. “Me chamo Thompson, mas pode me chamar de Thom. Te salvei porque quero passar o Ano Novo com você. Passamos muito pouco tempo do Natal juntos, e não queria perder essa oportunidade”, ele disse. Os dedos finos da jovem suaram frio e se enfraqueceram. Suas pernas tremiam. Ela queria rir, final, tudo era muito ridículo, mas não consegui, pois também queria passar o Réveillon com ele. Com o Desconhecido.
As palavra tímidas e frágeis que ela não achou que pudessem sair de sua boca emanaram como se outra pessoa, que não a sagaz Maria, alguém desinteressada e solícita, que ela não conhecia, falasse. Ela era assaltada por algo dentro de si, que dizia “Pare agora mesmo e entregue seu coração, ou você morrerá no limbo. Vamos! Rápido! E não olhe para mim!”, e uma violenta coronhada foi desferida em sua razão. Era uma vítima da obscuridade sarcástica do destino. “Onde você vai me levar?”, ela perguntou quase zonza. As aos do jovem seguraram e apertaram os dedos da desconhecida. Sua pela não era macia, e não cheirava a creme, mas eram as falanges sensíveis daquela que havia levado seu coração, e estava usando seu brinco de prata.
Thom, apesar de aparentar sobriedade, também sentia-se perdido em meio a uma multidão de pensamentos desconhecidos, em um lugar escuro, distante e desconhecido de sua mente, sem saber como voltar. Mas, meso assim, não perdia a posse de si. “Para as montanhas. Passaremos o Réveillon subindo montanhas. Um amigo meu, que também é músico, me falou que tem pessoas esperando por mim lá, nos primeiros minutos do dia primeiro, para erguer a pedra do jardim de Deus e me mostra o que há lá, para ver”. Os dedos da jovem dobraram-se sobre a mão que o envolvia. No banco de trás do carro, tênis, um saco de dormir, uma estranha bandeira que parecia ter sido mal confeccionada em casa, e duas mochilas. Ele guiou o carro para fora da cidade. Ela ligou o rádio e o beijou no pescoço, e sentiu um perfume paternal e muita confiança. Eram como o rio e o homem. Não eram mais quem eram.
Rumaram juntos para mais um janeiro. Ela sorriu. Coisa que ainda não havia feito. Encheu o lugar de luz e alegria, e se surpreendeu ao descobrir que também tinha isso do lado de dentro do peito. Os pés batiam ao som de um jazz. Ele guiava compenetrado. Eram uma família. Uma família de completos desconhecidos... “Feliz ano novo!”, ela murmurou. Ele ouvio contente. Aquilo significou que ela o havia escutado dizer “Feliz Natal”, mas duvidou por alguns segundos. “O que?”, “Nada...”
::: postado por Luiz C.: sábado, enero 19, 2008, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃO. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro), Feira (Neto) e Menina Fotográfica (Yoko).
- Hasta siempre...
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