Casa das mentiras:::

My Favourite Things
(Björk)
(...)
Girls in white dresses,
With blue satin sashes,
Snow flakes that stay on my nose and eyelashes,
Silver white winters,
That melt into springs,
These are a few of my favorite things . . .

-El Blog esta activo desde 18 de Marzo de 2003.

-Biene viendo...



miércoles, noviembre 21, 2007

Quem fosse ao albergue podia ganhar uma sopa e um bom lugar para passar a noite. As vezes eles arrumavam documentos e até algumas oportunidades de trabalho. A idéia fundamental é que ali só se pisasse uma vez, pois, de lá, as pessoas sairiam melhores, prontas para tentar viver de novo. Mas, na realidade, a maioria dos mendigos, loucos, drogados, criminosos e andarilhos que visitavam o local era reincidente. A Secretaria de Segurança, a polícia, o Serviço Social e as Organizações Não Governamentais faziam seus trabalhos de formiga, e enchiam a casa até que os recursos do governo reservados ao local se exaurissem. A piada que se contava entre os visitantes é que se você visitou o albergue, o próximo passo será a delegacia.

As pessoas que trabalhavam no albergue também eram de uma diversidade quase sem limites. Desde criminosos que cumpriam pena social, a religiosos, funcionários públicos contratados para fazer de conta que cuidam do local, funcionários públicos frustrados que gostariam de cuidar da casa, idealistas, pessoas que resolvem despertar o que há de bom em si quando chega o natal e, até, uns poucos que realmente passaram pelo abrigo uma ou duas vezes e aproveitaram as parcas oportunidades que lhes foram oferecidas e que, então, se sentiam no dever de fazer algo pelo lugar.

As noites de quarta-feira eram particularmente movimentadas. O dia da sopa era o que tinha menos voluntários e mais visitantes. Era oferecido um denso ensopado, mal temperado, feito de legumes cedidos de falsa boa vontade por supermercados, e de condimentos e não perecíveis arrecadados em saraus burgueses. Era para lá que iam a maioria dos alimentos arrecadados em atividades culturais “politicamente corretas” de quem tem para doar. Mas por mais tensa e rude que fosse a atmosfera, o lugar encerrava em si uma magia, que ninguém sabia explicar de onde vinha, e que servia ao local, sempre acabava recebendo uma sorte de venturas inexplicáveis na vida, por mais pacata que pudesse ser a pessoa. Rezavam as lendas mais desleixadas que isso era por que havia um cemitério indígena sob o casarão.

Os auxiliares que realmente marcavam presença nas noites mais movimentadas, podia-se dizer com uma certeza muito grande, eram as freiras e os delinqüentes que cumpriam pena. Não haviam muitos voluntários de ONGs, idealistas ou indivíduos em busca de recompensas divinas. As relações entre os trabalhadores e os visitantes era sempre amistosa no dia de Odim, e dificilmente alguém ousava ofender as religiosas que serviam e cozinhavam com mais freqüência que todos. A passividade do local era um fenômeno sem muita explicação, que simplesmente acontecia. Os mais bárbaros eram mansos com as mulheres. Uma ou outra vez uma novata podia ouvir uma asneira, mas logo que se acostumavam com o novo rosto, as respeitavam. Era mais difícil ter homens trabalhando no local.

Naquela quarta-feira a noite, início de dezembro, quando os enfeites natalinos encarrapitavam as luzes do centro da cidade, um rosto novo, mas não menos respeitável, somava-se ao séqüito de religiosas que trabalhavam no albergue. Ariana sorria com o rosto fino e os lábios delineados, servindo a sopa e tentando conversar um pouco com todos que passavam, dando conselhos e mensagens positivas, mas sem falar de religião para não parecer chata. Ao lado dela, cumprindo pena, o jovem Artur, de nariz alongado, ferimento de briga na têmpora direita e boca fechada, enchia pratos e mais pratos, quase sem se dar conta que não estava só.

Em um momento de calmaria, quando a noite já havia virado a madrugada do dia seguinte, após servir três pratos sem ver que não havia ninguém para pegá-los na hora, pela primeira vez no dia, Artur sentou-se. O jovem ascendeu um cigarro e soprou a fumaça para o alto. Ariana, que não tinha com quem conversar, sorriu para o colega e sentou-se em um banco ao seu lado, encantada com os modos rebeldes de seu companheiro. Ficaram em silêncio por um tempo até que, com desprendimento, a noviça sorriu para o compenetrado delinqüente e puxou assunto.

- Você não é do tipo que está aqui por livre e espontânea vontade...

- ...

- O que você fez?

Artur tinha a sobrancelha dura, como se estivesse pronto para brigar a qualquer momento, mas quando falou pela primeira vez na noite, mostrou-se mais sociável que sua figura triste sugeria.

- Um ano e meio por agressão física. Paguei nove meses e vinte dias em regime fechado, e agora estou em liberdade condicional. Consegui devido a meu bom comportamento, e o juiz disse que eu reduzo a pena se prestar serviços à comunidade. Desde então limpo o prédio do Corpo de Bombeiros. Um amigo meu, um major de lá, me disse que trabalhar aqui seria legal.

- Você bateu em alguém? Valeu a pena ficar preso tantos meses presos por bater em alguém?

- Quer me dar lição de moral?

Um silêncio incômodo pairou entre os dois colegas que dividiam a noite. O trabalho seguiria até às 5h da manhã. Eram 1h30. Uma senhora gorda e mal cheirosa, um homem negro, magro e alto, e outros três idosos entraram no refeitório do albergue. Artur apagou o cigarro e o jogou na lixeira. Ariana serviu mais dois pratos e os novos freguêses se sentaram em uma mesa não muito distante. “Não leva jeito... Não leva. Não leva jeito”, a senhora repetia após pegar a comida na mão da freira e ir sentar-se. Ariana voltou-se com os olhos aflitos para o rapaz. Ele a achou bela, mas fitrou-a com a friesa de um cão feroz.

- Me desculpe. Não era minha intenção.

- Tudo bem. Não estou ofendido. Se você quer saber, valeu a pena cada segundo que passei na cadeia. Não por ter quebrado a cara de um desgraçado... Desculpe. De um cara que merecia. Mas pelo que me aconteceu depois.

A freira riu. Tinha os olhos grandes e escuros, quase velados pelo excessivo preto que pintava sua visão, e os cabelos negros muito escorridos, afinando ainda mais seu rostinho. Usava uma longa saia negra, uma jaqueta cinza com o emblema do Sagrado Coração de Maria, e um terço grande dependurado no pescoço e um bem pequeno na mão esquerda. Suas mãos eram pequeninas como as de uma criança, e ela não devia ter mais de 1,55 metros. Devia ter no máximo 20 anos. Ela o fitou com meiguice e ele sentiu aqueles olhares resfriarem-lhe a alma, mas com uma sensação de frescor agradável. Artur usava um gesso na mão esquerda, um casaco de moletom também cinza, com um capuz grande, jogado para trás, uma calça jeans velha, com tênis velhos, e um colar de sementes-de-alguma-coisa. Os ombros do jovem eram largos. Devia ter cerca de 1,87 metros. Parecia ser feito para lutar. Era careca. Os olhos dele também eram expressivos, de um castanho profundo. Ele parecia ter cerca de 23 anos, e se movia com agilidade e determinação. Embora trabalhasse sem quase olhar para as pessoas, não agia mecanicamente.

- Você é do tipo estóico então?

- Foi a minha primeira lição quando me pegaram. Recebi de um homem que foi me visitar na cadeia depois de ver minha foto no jornal, um livro do filósofo Marco Aurélio. Ele disse que eu sabia por que ele era assim comigo, só não tinha descoberto. Pediu que eu o chamasse de padre Belga, e disse que ia voltar a me procurar quando meu espírito estivesse pronto. Depois que saí o procurei em todas as igrejas, mas parece que ele não é padre de verdade. Procurei pela cidade e o major do Corpo de Bombeiros me abrigou quando contei a história para ele. Muito engraçado. Mas, de fato, os Romanos, de séculos atrás, fizeram, com uma pequena viagem no tempo através da literatura, com que valesse a pena eu ser preso.

Após ouvir o nome do padre Belga, Ariana moveu-se tentando ocultar uma inquietação que a traiu. Artur percebeu, mas a menina desviou o olhar e deu continuidade à conversa, com o mesmo clima descompromissado e sincero de antes.

- E seu rosto machucado? Andou se envolvendo em brigas novamente?

- Estou, realmente, mudando meu modo de ser. Se a polícia souber que briguei, volto sem pestanejar para a jaula. Mas o fato de eu mudar não quer dizer que meu passado vai simplesmente me abandonar.

- Igual ao filme do Rei Leão?

- Pode ser.

Ambos riram. Artur não se sentia assim há muito tempo. E há muito tempo também, Ariana não encontrava alguém que a olhasse com franqueza, que a visse como humana, e não como pura ou pecadora,m como se sentia fuzilada por ambos os lados de sua vida. Era um alívio para ambos estarem ali conversando. Ela tinha uma gargalhada fina, cheia, espontânea. Artur apenas sorria e acenava com a cabeça. Pareciam se conhecer há anos, talvez décadas.

- Eu fazia fotografia. Quase me formei em psicologia, mas larguei para a igreja. Sou irrequieta. Sinto que preciso agir. Depois que fui aceita no convento, estudei enfermagem por uns tempos, mas não consegui continuar, então a madre me sugeriu que eu realizasse trabalhos sociais. Disse que quem serve encontra o seu caminho. Então...

- Então o que?

-Nada. Não é importante. Então eu vim parar aqui e nos conhecemos. Quer falar sobre a sua briga?

- Você está mesmo curiosa?

- Sim.

- Mas não vou falar.

Dessa vez o silêncio que tomou o ambiente atrás do balcão e das panelas foi de reflexão, e sem constrangimentos. Ambos pensavam nos fatos que haviam se desencadeado curiosamente em suas vidas para fazê-los se encontrarem, por motivos tão contrastantes, na mesma situação. Não revelavam isso um ao outro, até porque não tinham intimidade. Mas seus olhares os traíam. Ariana sentia-se protegida, e Artur via que havia um caminho e um propósito ao lado da nova amiga, embora não soubesse bem qual fosse. Colaboraram mutuamente o resto da noite. As horas passaram rápido com as piadas e os desajeitos que tinham quando se ajudavam. O sol despontava no horizonte quando, diante da entrada do albergue, cansados, o casal se despedia ansiando mais um encontro que, fatalmente, deixaram por conta do acaso.

::: postado por Luiz C.: miércoles, noviembre 21, 2007, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃO. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro), Feira (Neto) e Menina Fotográfica (Yoko).

- Hasta siempre...

Luiz, 24, jornalista.
Latino-americano de espírito, Luiz Calcagno Fettermann nasceu no dia cinco de outubro de 1982. Desenvolveu este blog com a finalidade de publicar seus textos e examinar a progressão técnica do que vem criando desde os 12 anos. Este espaço é um laboratório literário pessoal. A permanência dos textos está sujeita às alterações de humores do autor.
Mariana Proust, Brasília, 25 de Maio de 2005

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