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miércoles, agosto 22, 2007
Sobrevivência
Sob pinheiros, pêssegos e magnólias, adorando o Sol e a Lua, em um lugar distante onde o ser humano e a natureza eram parte de uma única divindade cósmica, sob a constelação da Rã, em um maravilhoso vale, nasceu e cresceu a bela Winona, filha mais velha do grande Sioux, herdeiro do espírito dos Cheyenne. Era uma jovem muito viva, de olhos negro como a noite sem estrelas, subserviente à família e dedicada à tradição de seu povo. A pequena princesa sempre seguia as determinações de sua aldeia, defendia e ensinava os mais novos, e auxiliava e aprendia prestativamente com os mais idosos. Sioux, o Chefe, orgulhoso da filha que tinha, sempre a alertava para que não pegasse atalhos desconhecidos ou se distraísse na Grande Floresta, na intenção de fazê-la a mais feliz menina entre as montanhas e os abismos. “Nosso povo deve ser vivo, alerta e veloz. Somos filhos das águias, e não podemos nos deixar enganar pelas provações da Mãe. Quero que você, minha filha, seja um bom exemplo para os nossos filhos no futuro”, lembrava o grande líder.
Os filhos, para aquele povo, eram todos aqueles que fossem leais à família real e aos costumes sagrados das tradições. Os dias daqueles tempos passavam com os pés pequenos de Winona quase sempre seguindo apressados os passos largos do pai, enquanto este mantinha a população unida, discutindo, ensinando, aprendendo e servindo bondosamente a cada família que vivia sob sua tutela. A filha, no entanto, apesar de dedicada, era muito insatisfeita com a posição que tinha entre seu povo. Se pudesse, não queria o peso de ser filha do chefe para si, não queria cumprir suas responsabilidades, e, definitivamente, não queria se apaixonar ou ter filhos, fossem eles de sua barriga ou do seio da terra. Winona era selvagem, independente, e o pai ria da postura audaciosa da filha, sempre a alertando para o dia em que a natureza a revelasse as novas Winonas que viviam dentro da primogênita. “Winona, a lebre e a águia são muito diferentes, mas ambas são expressões divinas”, o pai explicava. “Se faço algo é porque meu coração diz, papai. Honro nossas tradições, mas sou dona de mim, e só eu sei quem sou!”, respondia a filha fazendo tranças nos negros cabelos. O homem grande sorria amorosamente para a filha, sabendo que a impetuosidade da juventude é terreno fértil para a sabedoria dos mais velhos.
A jovem seguiu os passos dos antigos, mesmo que muitas vezes contra a própria vontade, mas de coração, até o dia de sua iniciação, quando descobriu as outras incontáveis princesas que velavam seu jovial espírito feminino. No inverno que seguiu sua décima sexta primavera, Winona foi levada para a encosta da montanha. A jovem foi abandonada nua, na margem leste da cachoeira, no início da noite, e deveria chegar à margem oeste seguindo a encosta, no terceiro ciclo lunar, quando a Lua estivesse cheia, vestida em uma pele de urso, com uma revelação nos lábios. A duração de um rito era, em geral, mais que suficiente para cumprir a tarefa, embora a missão fosse árdua. O não cumprimento significaria morte ou expurgo. A velha xamã, Tasunka, com olhos opacos voltados para a alma e escuros para a matéria, caminhou com seu cajado em direção à menina e levantou o queixo de Winona com suas mãos escuras e enrugadas. Com uma velha faca de pedra, rasgou as vestes da jovem com um único golpe, sem sequer tocar a ponta da adaga na pele da princesa. Winona tomou um chá feito de sementes vermelhas que era pastoso e adocicado. A velha deu uma gargalhada e partiu falando com os espíritos invisíveis da natureza, mas sem, em momento algum, falar com a adepta, que sabia o que precisava ser feito. (...)
No alto da montanha, sob a arguta ventania que assobiava nos penhascos, debaixo de grossas gotas da tempestade, em um dia agourento e misterioso, um povo lacônio que vivia a lei voraz da Mãe, os destemidos guerreiros Latkekt, inimigos mortais dos Cheyenne, recebiam em uma tenda, sentados em círculo em torno da jovem e moribunda Tallahassee, o pequeno Lakota. A fumaça do incenso em brasa carregava o ambiente com uma aura espectral, e o aroma do sangue que escorria da mãe morta, mostrava ao oráculo um futuro de névoas e indecisões. Sobre as nuvens, um céu tranqüilo destacava a constelação do Lobo Devorador. Sem pai ou mãe, o pequeno lutador cresceu tutelado pelos professores do povo, nunca dormindo no conforto, nunca se divertindo com nada que não fosse à habilidade de luta e caça daquela tribo. Era um menino com as características típicas dos Latkekt, olhos e cabelos cinzentos, lisos e desgrenhados, pele pálida e corpo esguio, que aprendia rápido e despertava o medo e a curiosidade dos seus instrutores. Não fosse o fato de não ter um pai e ter nascido de uma mãe morta, seria um membro comum daquela sociedade. O jovem, como os agouros ameaçadores revelavam, guardava em si um estranho orgulho e eficiência, e o único que lhe dirigia a palavra com respeito e não lhe feria era o Chefe. “Vivo para servir à tribo, e a tribo é o que sua vontade percebe. Entendi isso enquanto surrava seu filho mais velho, senhor. Devo sentir-me envergonhado por isso?”, perguntou certa vez Lakota. “A luta foi honesta. Você torna seu futuro pai mais forte. Deve se orgulhar das vitórias, conquistar cicatrizes e aprender com cada derrota. Assim é a evolução. Por ter que correr do lobo, a lebre se tornou veloz e objetiva”, respondeu-lhe o altivo homem.
Sem família que mostrasse a Lakota os caminhos trilhados, o melhor amigo do rapaz foi a lança, e o mais violento dos homens entre os montanheses, Chihuahua, foi que falou ao pequeno caçador sobre a tradição de seu povo. “Olhe para mim, assassino de sua mãe, quando eu estiver falando com você. O urso irá te devorar assim como você devora os peixes, e se você vencer a fera, a terra irá te engolir, até que você retorne. Só te digo isso porque você tem mais colhões que os outros pirralhos!”, enfatizava o rabugento guerreiro. Os mais jovens aplicavam seus conhecimentos na caça e em lutas instrutivas, eram chamados de Caçadores. Os iniciados lutavam em rituais, decidiam se haveria guerra ou paz, e ensinavam os adeptos. Eram os Guerreiros. Era uma honra ser vencido em batalha pelas mãos de um discípulo em desvantagem. O Chefe, sempre com o nome de Topeka, guardava consigo e ensinava seus sucessores a arte de fazer as armas, desde zarabatanas às preferidas lanças. Os Parias são escravos. Membros da sociedade que não foram aceitos em seu seio após a iniciação.
Lakota cresceu sob a violenta tutela de Chihuahua, e quando completou seu décimo oitavo inverno, foi levado para a encosta da montanha com mais três de sua idade, sendo uma mulher e um homens, cada um em um ponto diferente para dar início ao ritual de iniciação: a Caçada. Lutariam entre si. Teriam quatro ciclos lunares para completar a prova. Fariam suas cabanas, viveriam da própria caça e somente dois sobreviveriam, sendo que apenas um seria cidadão de direito: aquele que voltasse com duas lanças. Caso apenas um caçador sobrevivesse, seria considerado Paria, então a segunda e última luta da prova não deveria ser mortal, embora nenhum dos caçadores quisesse entrar na fase adulta sem os louros do Guerreiro. Com a zarabatana nas costas, coberto por uma pele de lobo que iniciava com a face trabalhada do animal sobre a cabeça, e a lança firme em punho Lakota ouviu as últimas recomendações de seu mestre antes de iniciar a Caçada. “Se você voltar paria, meu odiado aluno, morrerá” disse com um sorriso sádico no rosto. O pupilo, com o seu usual ar de orgulho deu com os ombros e seguiu em direção ao oeste. (...)
As provas seguiam sem grandes eventos. Os Cheyenne e os Latkekt provavam seus filhos no mesmo período, o que era extremamente raro. Nenhum dos jovens sabia que seus piores inimigos também passavam por desafios. Winona, percorrido o período de uma Lua desde o início de sua iniciação, perseguia um urso macho, que morava em uma caverna no lado norte da montanha, extremo oposto do vale, e estava mais longe de casa que nunca. Tinha agora uma pequena adaga de tosca fabricação e uma corda de raízes trançadas, e preparava armadilhas para aprisionar a fera antes de matá-la. Sabia que se não permanecesse sempre atenta, passaria de caçadora para caça rapidamente. Para os pequenos Caçadores, duas Luas já haviam se passado, e nenhum deles ainda travara sequer um pequeno combate. Dormir era um terrível exercício que podia significar a morte ou a escravidão, e os sonhos só invadiam a mente dos Latkekt quando o sono era inevitável. Vagavam a esmo, sem saber se os outros já haviam lutado, e se fora uma luta com vencedores ou morte de ambos os lados.
Depois de muitas noites sem dormir, Utah avistou uma figura humana vagando nas proximidades das entradas para as cavernas subterrâneas assombradas das montanhas. O jovem corpulento e de olhos vermelhos correu com sutileza entre as árvores. Se aproximava como um felino que se prepara para apanhar a presa. “Mais perto. Um pouco mais. Só mais alguns passos.”, dizia para si mesmo enquanto analisava o inimigo. Pôde ver que a vítima tinha uma adaga de pedra na mão esquerda, e parou como se pressentisse a presença de Utah. Momentos de imobilidade se seguiram. “É a garota. Será que ela já matou o Lakota?”, se perguntou. Sua vítima abaixou-se lentamente, dificultando a visibilidade do inimigo. O jovem caçador procurou uma posição segura, onde poderia ferir sua presa sem matá-la, imaginando se já tinha sido percebido.
Em uma clareira, próximo à morada de suas caças, Winona sentiu que era observada. Ouviu o farfalhar da relva e pisos na folhagem e um medo percorreu sua espinha. “Será que ele mordeu a isca?” perguntava-se. Abaixou-se e seguiu para a esquerda, na esperança de que o urso a seguisse rumo a uma armadilha. Seu corpo nu e sujo firmava-se sob a tensão da batalha. Ouviu a criatura atrás de si e sentiu-se mais confiante. Finalmente pegaria a fera, e começaria, em tempo, o caminho de volta para casa, em busca de sua revelação. O pensamento, contudo, não a animava muito. Era bom ficar na floresta sozinha, por conta de si, e não sofrer a pressão de ser a futura líder de toda uma tribo. A figura atrás de si fazia menção de avançar. O coração da jovem batia acelerado.
Lakota viu Utah de costas, avançando cautelosamente para algo mais adiante, que não podia ser percebido pelo rapaz. “É o caminho da clareira. Será que viu a menina Idaho?”, indagou-se. Silenciosamente decidiu seguir o inimigo e ver o que aconteceria, sem pensar que poderia cair em uma armadilha. Era muito comum que duplas negociassem matar o terceiro antes de lutarem, equilibrando a batalha sem a necessidade de fazer prisioneiros. Avançando na diagonal, para analisar melhor a situação, Lakota viu Utah aproximando-se de uma terceira pessoa. “Porque Idaho está nua, e porque se move de costas para Utha? Espere, essa não é Idaho...” Um mal pressentimento invadiu o peito de Lakota, que firmou a lança na mão e se preparou para se revelar.
Winona ouviu o inimigo correr em suas costas. “Um urso não se move tão rapidamente...”, pensou ao ouvir os passos atrás de si, e virou-se quase que imediatamente. Utah evitou uma armadilha de cordas colocada em seu caminho e saltou em um chute, acertando a princesa Cheyenne no ombro direito, e derrubando-a. A faca da jovem voou para longe de suas mãos. “Você não é a menina da minha prova! Você é uma Cheyenne..”, concluiu em tom de indignação como se dissesse um palavrão. A menina ergueu o rosto, atordoada, tentando afastar-se lentamente do inimigo, em direção a sua faca. “Terei que lutar.”, pensou. O inimigo olhou com tenacidade para o corpo da jovem. “Imaginem só a honra que vou ganhar se, alem de vencer meus oponentes, levar uma prisioneira para a tribo... Ou será que devo te matar? De qualquer forma, vou te ferir para você não me atrapalhar muito” Sussurrou com um olhar sádico enquanto apontava a lança contra Winona.
“Utah, é melhor você se preocupar com seus verdadeiros inimigos”, Lakota disse enquanto andava descontraído em direção ao oponente. Winona olhou para ambos os lados e ficou paralisada de surpresa ante os inimigos que se desafiavam. Utah baixou a lança novamente e se voltou para Lakota, com um sorriso amargo no rosto, de quem é privado de uma diversão. “Ora, ora, ora... Não é que o paria veio defender a garota da tribo do vale...”, sorriu. “Não vou permitir que você fira a garota pelo seu bel prazer. Isso não faz parte da prova. Você a atacou pelas costas, e não precisa de ninguém além de mim.”, desafiou. Os oponentes empunharam as lanças. Nenhum dos dois sabia se Idaho havia sido morta, então não podiam se matar, mas definitivamente não pretendiam fazer nenhum acordo. Winona afastou-se e pegou sua faca. Mais adiante, na direção oposta à que esperava, sua caça surgiu ameaçadoramente pacifica, seguindo em sua direção.
::: postado por Luiz C.: miércoles, agosto 22, 2007, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃO. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro), Feira (Neto) e Menina Fotográfica (Yoko).
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