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sábado, julio 14, 2007
A Dama das Lágrimas e o Cavaleiro Errante
As lágrimas corriam pelo rosto da garota. Rolavam pela pele clara e límpida como orvalho nas pétalas das rosas. Tudo salgava. Gotas encharcavam a blusa, corriam pelas maçãs do rosto, entravam pelos lábios, colavam o cabelo que caia em sua face. Faziam-na suar, tremer, soluçar, apertar os olhos sem acreditar, e abri-los novamente. Eram tantas lágrimas que o sutiã da jovem começava a aparecer sob a blusa branca que colava em sua pele. E ela chorava, chorava e chorava. Há muito não se via uma garota de 16 anos chorar assim sobre a terra. Não em pleno século XXI.
E Amanda chorava tanto, mas tanto, que um pequeno fiorde começava a se formar sob seus pés afundados nas lágrimas infelizes da triste menina de blusa branca, saia negra e coturno que tentava, em vão, recuperar o fôlego. E o líquido encharcavam a sala, e saía por debaixo da porta, escorria pela escada lenta e umidamente, e se esgueirava pela portaria do edifício, matando a grama de desilusão, e lameava a terra e transbordava pela calçada. E a menina, em seu quarto, sentada em sua cadeira comprada em um antiquário, chorava, com o corpo pálido molhado pelas próprias lágrimas.
Enquanto isso o rapaz, de blusa vermelha, óculos de grau pequeno, lenço negro amarrado no punho esquerdo, jeans velho e tênis surrado procurava por todo canto um soluço choroso que o incomodava no silêncio, todas as noites, e o enchia de preocupação, e lhe partia o coração, e convocava a presença de quem fosse capaz de ouvir o lamuriar. Ele caminhava determinado, tentando manter os pensamentos em silêncio, para escutar aquele lamento que incendiava os espíritos em meio à buzinas, roncos de motores, toques de celular, alarmes de carro e gritos oferecidos de ambulantes que teimavam em puxá-lo e oferecer toda a sorte de coisas que, garantiam, satisfariam qualquer desejo. E ele lutava para ouvir o soluço guia que parecia tristeza, mas que algo tinha de futura felicidade.
Hora o jovem vacilava, fosse pelo brilho de um pequeno objeto, ou pelo urrar de uma sirene de horário de almoço de uma construção. Mas no mínimo silêncio que precedia o medo e o desejo sempre insatisfeitos, sua alma o lembrava da busca eterna. Tantas noites sem sono, procurando aflito por sobre pensamentos e sonhos inacabados, por entre cobertas e travesseiros, até que seus ouvidos internos denunciaram a infelicidade que sussurrava penosa em algum canto obscuro de si.
A cidade era uma selva pantanosa. Oma bruxa maligna que nunca dormia. Ama canibal cruel que a todos devorava. E nela, animais perigosos de toda a variedade e tamanho, novos e velhos, urrando seus motores dragonescos, deixavam um rastro de fumaça tóxica por onde seguiam. Haviam também saqueadores de conquistas, solitários, esguios, truculentos e em bando. E os já mencionados camelôs, vendendo ilusão e mentira. Velhos tolos, e figuras obtusas que misturam ao ouro, lama e garrafas quebradas. Escadarias que simulam longas trilhas, ruas que são como correntezas perigosas, intermináveis cores e sons, formas e texturas, tudo malevolamente planejado, para que não se ouça o chorar triste da princesa solitária da torre, que derrama sobre si um rio de lágrimas infelizes por não mais cumprir seu papel na canção do universo, oculta sob a tempestade de sons impuros, como o sol por de trás das nuvens cinzentas.
O menino, Raul, de cabelos curtos, seguia determinado, cerrando os olhos e acurando os ouvidos para se esquivar das provas que o testavam o senso, e escutar o chamado daquela que, além das lágrimas, lhe trazia sempre a reveladora satisfação. Amanda e Raul, Raul e Amanda, separados pela valsa do caos, ocultos em torres de vidro e masmorras de aço e concreto, linhas retas tão cortantes quanto o fio da espada. As lágrimas dela seguiam pelo canto da calçada como água da chuva. Os pés do jovem seguiam com a destreza de um jovial cavaleiro.
Uma senhora de cabelos grandes o olhar melancólico, de pele escura, parada ao lado da barraca de frutas, segurou no braço do jovem. E Raul, inexplicavelmente, se deteve àquelas mãos finas e quentes, e àquela pele de papel. A velha o sorriu. O olhar do jovem caminhou por séculos em segundos pelas rugas definidas da amável face da idosa. “Na última rua, a um passo do bosque, há um rio de sal. Ele te levará à voz que murmura em seu peito”, ela disse. Raul acenou com a cabeça, sorriu com o canto da boca, ouviu claramente o choro de Amanda, pegou uma bicicleta vermelha e começou a deslizar pelo asfalto cortando os besouros de aço.
As mãos de Amanda apertavam a barra de sua saia. As lágrimas corriam incessantes. Que martírio. Que papel os Deuses a haviam designado. Porque tanto chorar? Ela engolia, respirava fundo, e o vazio a preenchia novamente, tomando o seu coração e usurpando a coroa das esquecidas verdades que repousam tranqüilas detrás das cortinas das opiniões. Era tão triste aquela solidão, oculta do amor contra a própria vontade, vertendo a frustração em lágrimas amargas, ansiado por um sonho, um sorriso que fosse. Ninguém que sirva aos reis do mundo, em qualquer tempo, devia ser posto em torres por aqueles a quem só iria beneficiar.
Raul parou a bicicleta na entrada da rua. Depois de um pequeno prédio de apartamentos podiam se ver as árvores que criavam o bosque. O jovem desceu a viela, então se viu com o pé mergulhado em um pequeno riacho morno e denso, porém cristalino. Foi andando contra a correnteza, chegou à portaria do prédio, abriu sem receio, como os paladinos fizeram algum dia, e foi subindo os degraus, seguindo o rastro de lamentações que inundavam o edifício. Chegou à porta prometida. O coração disparou. A mão tremeu e fraquejou. A cabeça pesou, mas Raul, a despeito de qualquer emoção, girou a maçaneta.
Àquela altura do campeonato os soluços já eram límpidos e claros. A jovem sentia também, do outro lado, que um adepto ao fim do que era mentira avançava pelos tortuosos corredores, e subia os degraus das dificuldades com pureza, e avançava independente do medo. A maçaneta foi tocada e girada. O som tradicional de porta se abrindo anunciou momentos de silêncio e expectativa em ambos os lados do mundo. O casal se entreolhou. Seus olhos brilhavam. Um soluço de felicidade e regozijo foi ouvido por toda a realidade.
Raul Entrou no apartamento e fechou a porta. Amanda levantou-se contente. “Você! Minha alma! Era você que estava chorando”, ele disse surpreso. “Não. Eu estava em silêncio. Aguardando-te. Mas não estava chorando”, ela respondeu sorrindo em um caleidoscópico paradoxo. Ele olhou para si, e estava inundado de lágrimas. E ela caminhou com passos elegantes até a entrada. Ficaram frente a frente, como se esperassem por isso há muitas encarnações. Ele sentiu um rio de tristeza ir embora. Ela o abraçou apressada. Os braços de Raul a envolveram. Seus corpos se tocaram. E, como nos romances de cavalaria, se beijaram de um modo amoroso e incandescido, mas puro e ingênuo. E o mundo ganhou uma nova chance.
::: postado por Luiz C.: sábado, julio 14, 2007, horário de Luanda, África
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miércoles, julio 04, 2007
Apocalipse
(Luiz Calcagno)
O carpinteiro trabalhava
Curvas indeterminadas.
Uma amante de madeira
Com seios e alma talhada.
Mas a plasmação da noiva,
O univerço tolia.
Eram formas idealizadas,
Por uma vida atormentada.
Então em acesso de fúria,
Ele cedeu marteladas truncadas,
A a estátua futura,
Chorou pela face lascada.
Quebrou-se deixando a sombra,
De uma beleza esmerada.
E fez para todos a falta,
de uma existência encerrada,
Cuja presença não esteve,
em nós jamais aclarada.
Cerragens de realidade,
Em uma ilusão revelada.
::: postado por Luiz C.: miércoles, julio 04, 2007, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃO. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro), Feira (Neto) e Menina Fotográfica (Yoko).
- Hasta siempre...
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