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jueves, junio 21, 2007
O jovem coringa
Tantas coisas fugiam do controle de Jonas. Ele achava estranho e também engraçado. Também era um pouco anormal a sua forma de olhar para as coisas, como se elas não estivessem realmente ali. E ele se questionava se elas existiam, mesmo que ele pudesse tocar nelas. Quando criança chegou a passar a língua na parede, para ter certeza de que ambos estavam ali. Sentiu o gosto da sujeira, a própria língua e a testura da massa, mas não foi o suficiente. Continuou achando que não estava ali.
Ao lidar com o universo, sentia que a existência, se é que pudesse ser chamada de existência, seguia padrões materiais e de relacionamento com o ambiente. Eram estadas da matéria, suas cores, o fato de absorverem energia ou liberarem, dependendo da situação, se reagia de uma ou de outra forma em contato com outros objetos. O comportamento de um átomo podia mudar de acordo com a presença de diferentes seres. Tudo parecia submergir em cordas de fantoches entrelaçadas.
Um dia, pensando sobre o que de bom e de ruim acontecia, e de como essas coisas eram relativas e nunca como pensava que pudesse ser, e como elas mudavam sobre mudanças e podia-se agir ou se deixar levar, viu que até os sentimentos são assim. Talvez, mais profundamente, ele pudesse estar enganado. Talvez estivesse falando de sensações mais sutis, e não de sentimentos, mas enfim, percebeu que eles agem em nossa visão de mundo, e se contorcem semi-vivos em nosso peito. Viu que o medo de ser repreendido só é diferente de uma outra contrariedade inevitável na crença do que é, mas que são a mesma coisa, e que uma alegria eufórica é sempre insatisfatória, assim como a necessidade irreparável de encontrar um próximo.
Jonas viu que se o mundo era ilusório, do lado de dentro, no filtro de interpretações dos acontecimentos, tudo também o era. Mas se percebia tudo isso, não devia exatamente sê-lo, pois eram coisas muito passageiras, que ruíam e se desenvolviam como tudo no mundo. Já tivera dezenas de sensações e sentimentos diferentes, já pensara sob diversos ângulos sobre a mesma coisa, já foi herói, pirata, pirata herói, astronauta, lutador, mocinho, policial, bandido, estudante, universitário, trabalhador, e mudou tanto em um único dia, que para manter a integridade, só poderia ser algo além. Então reparou que uma pedra sempre reluzia às seis da manhã e às seis da tarde no alto daquela colina. Eram quatro horas e o sol ainda não tinha nascido. Arrumou a mochila, e pôs-se a escalar...
::: postado por Luiz C.: jueves, junio 21, 2007, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃO. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro), Feira (Neto) e Menina Fotográfica (Yoko).
- Hasta siempre...
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