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-Biene viendo...
jueves, abril 26, 2007
Passos mitológicos
Numa casa abandonada,
Numa estrada estranha,
No passado da humanidade,
No fundo de um velho baú,
Cuja visão infundiria,
Saudade, lembrança, romaria,
Desejo, memória, nostalgia,
Encontrei minha ancestralidade.
Era tal a idade,
Daquela máscara vermelha,
Que me servia qual uma segunda pele,
Que me revelava um história,
Que somente em torno da fogueira,
O bisavô de meu tataravô Pereira,
Dançando e erguendo poeira,
Me ligaria a um antigo Deus.
Quando minha Mãe me disse adeus,
Fiquei só comigo mesmo,
E encarei a jovem figura,
No espelho da parede,
Tive de devorar meu medo,
De um engano que era ledo,
E roubar o meu segredo,
E lutar e escapar caverna.
Foi mancando de uma perna,
Que consegui vencer a luta.
Quebrou-se então a velha persona,
E minha face revelou,
Com a graça das ariranhas
Do mais profundo de minhas entranhas,
Sob formas deveras estranhas,
Um coração sem nenhum receio.
Não era produto do meio,
Vindo do próprio Hades,
Era um épico trajeto,
De árdua caminhada.
Foi então de força bruta,
Sob o suor da labuta,
Que a minha história foi fruta,
Do nascimento do Ser.
Desilusão
A casa era pequena,
O caso era confuso,
A moça fazia cena,
O retrato era difuso.
O rapaz se aproximava,
Com seu olhar intruso,
A menina que o observava,
Vestia uma moda em desuso.
Isso foi numa espelunca,
Numa cidade distante,
Depois sobre a luz da Lua,
Tornar-se-iam amantes.
Ele seria fotógrafo,
Ela seria bióloga,
Estudariam psicologia,
Nas suas horas de folga.
Teriam uma criança logo,
A vida seria colorida,
Num altermundo distante,
Bem longe de nossas vidas.
Seriam felizes para sempre,
Como nos contos de fada.
Até que bombas atômicas
Arrancassem suas asas.
Tudo terminaria deserto,
Sem cão, sem árvores nem nada.
Então o futuro seria incerto,
Sem cornetas na alvorada.
Sob a luz laranja do Sol,
Não haveria museu, não haveria espada.
Nem canção mais haveria,
Muito menos essa poesia.
Só restariam solitárias estradas.
Sob a luz laranja do Sol,
Não restaria mais do que um triste nada...
Sonâmbulo
Folhas secas no jardim,
Ventania no quintal,
Giz de cera pelo chão,
Sentimentos no varal.
Esperança na alvorada,
Solidad no solar,
Sorrisinho no almoço,
Indecencias no jantar.
Um caminho de vivências,
De procuras incesantes,
Minhas marcas de nascença,
São o mapa do obstante,
Um gracejo de menino,
Alguns livros na estante.
O mentiroso
O meu cartão de visitas,
Nunca foi muito bem vindo,
Não é o Pão de Açúcar,
Também não é o Pelourinho,
O meu cartão de visitas,
É uma porta fechada,
Para todos os românticos,
Para o coração da amada.
O meu cartão de visitas,
É um cerrado punho direito,
Com um anel grande no dedo,
Sou o valentão perfeito.
O meu cartão de visitas,
É uma mentiraiada,
Sou um pobre romântico,
Desses que não valem nada.
Repórter fotográfico
Depois do atropelamento,
O jornalista se aproximou,
Tomou a vítima nos braços
Abraçou a jovem e olhou.
Foi beijado e retribuiu.
Com toda obediência.
Sem saber daquele beijo,
Qual era a procedência.
Loucura
Ela riscava com os finos dedos
Ladrilhos embaçados pelo calor.
A jovem guardava consigo segredos,
Invenções e desventuras, verdades e medos,
Ela não tinha em seus auspícios,
Que aqueles ladrilhos do quarto,
Naquela sala vazia,
Eram os azulejos do hospício.
Pelo corpo de Estela
Dedo mirando o céu,
Apontando para as estrelas.
Dedos de ternura,
Na ponta do nariz dela.
Dedos de ousadia,
No meio de das pernas de Estela.
Gritos atrás da porta,
Pelos meus simples gestos.
Palavras de rude paixão,
Bebendo seu caldo indigesto,
Dedos pelas suas costas,
Nunca fui muito honesto.
Bandoleiro sorrindo sozinho,
Vida de alvoroço.
Ela é minha Estela,
Mordendo o meu pescoço.
Nunca fui muito bonzinho,
Brincando com o seu corpo.
Deitado em berço esplêndido,
Te amando até os ossos.
::: postado por Luiz C.: jueves, abril 26, 2007, horário de Luanda, África
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jueves, abril 19, 2007
Profecias de quarta-feira a noite...
No futuro os homens serão uma espécie rara. Quem não tomar cuidado com os predadores irá afinar nossas fileiras de existência. Os prédios e casas serão a ruína de um passado distante. As moradas de hoje serão menos que cavernas, e sortudos serão aqueles que viverem em uma. Ninguém se lembrará da TV, do rádio ou do computador. Não haverá Brasil ou Estados Unidos, nem Irã, nem China, nem Índia, nem nada. Carros ou grandes barcos serão uma lembrança, e nós estaremos domesticando cães e cavalos novamente. Começando quase do zero. Viveremos como os sapos sobre os charcos, como as cabras sobre as montanhas, e como os lobos sobre as planícies.
Nossas roupas serão trapos e restos das antigas vestimentas de uma sociedade conhecida um dia como "moderna". Irão se adaptar aos novos tempos, voltando ao couro cru e às plantas. Não existirão universidades, poucos serão os livros, e menos ainda os que sabem ler aquele idioma dos avós dos avós. A geografia não será mais a mesma. Os mais jovens virarão homens quando caçarem, e as mais novas, mulheres, quando puderem gerar filhos. E tudo será esquecido e precisará ser revivido para ser lembrado. A lança com ponta de pedra será uma temível e ameaçadora arma.
Com o tempo, os mais velhos voltarão a contar histórias. Dentre elas, haverá uma horrível, de como os homens do passado, lutando pelas próprias ambições, mataram quase tudo que crescia sobre a terra, inclusive à própria espécie. Usaram o poder do brilho das estrelas e do calor do sol, e envenenaram os ventos, assassinaram os antigos rios, e reviraram as terras sobre o mar, e condenaram o futuro. Então a lua e a luz das estrelas serão inspiração para as novas idéias, e descobriremos o calor da uva e o frescor do abacaxi.
"O homem já foi o grande rei sobre os outros seres", dirão. "O homem mandou no rio, nos bichos, e até nos teimosos minerais. Mas a arrogância fez com que a Grande Mãe Terra revirasse céu e mar, e misturasse o 'em cima' e o 'embaixo', e destronasse o cruel bípede." Contarão ao redor das fogueiras." Então nossos reis serão o sapo, os lobos, as cabras e os cavalos, e nós conheceremos de novo os passos piedosos dos antigos Deuses." Os mais jovens irão saber que tudo vive e tem direito a vida, e que a arrogância, o egoísmo, a inveja e a ambição, são pecados mortais, e que nem os vermes são merecedores de tão torpes sentimentos.
Os mais sérios, os líderes e detentores da história, hão de servir novamente ao planeta, de modo integrado e amável, e aos poucos o ferro e o leite alimentarão novamente a nossa sociedade. O tempo sempre há de passar, e a Mãe ama seus filhos incondicionalmente. Nascerá a espada, a flauta e a ferramenta, e as mulheres serão mulheres quando sua alma disser, e não quando seu corpo mandar, e os homens serão homens ao prenúncio da moral, e não à brutalidade do punho. E o grupo de coisas que correspondem, no nosso mundo, à permanência do Homem sob o sol, a noite e a tempestade, voltaram a existir de um modo glorioso e sábio. E a raça humana viverá os últimos dias sobre a Terra com glória e louvor, e serão amados como deuses por outros animais, e amarão as seus Deuses e os servirão, com a lealdade do cão, a dedicação dos peixes, e a eficácia do boi.
::: postado por Luiz C.: jueves, abril 19, 2007, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃO. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro), Feira (Neto) e Menina Fotográfica (Yoko).
- Hasta siempre...
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