Casa das mentiras:::

Mamãe Coragem
(Caetano Veloso/torquato Neto)
Mamãe, mamãe, não chore
A vida é assim mesmo
Eu fui embora
Mamãe, mamãe, não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe, não chore
A vida é assim mesmo
Eu quero mesmo é isto aqui

Mamãe, mamãe, não chore
Pegue uns panos pra lavar
Leia um romance
Veja as contas do mercado

-El Blog esta activo desde 18 de Marzo de 2003.

-Biene viendo...



lunes, febrero 26, 2007  

Cosmogonia de fundo de quintal

Isabelle pensava no universo enquanto retirava as roupas do varal. Enquanto guardava sutiãs e calcinhas, imaginava (como bióloga que era) que a natureza nunca fez nada que não fosse objetivo, prático e funcional. O que se tornava obsoleto, a evolução devorava. Foi assim com parte de corpos e até com espécies inteiras. As indagações de Jonas a levaram a refletir sobre isso. Ele era jornalista a escritor. Realmente não é necessário algum diploma para entrar em contato com a Criação.

O rapaz desenhava as plantas do jardim como se ilustrasse um antigo livro de biologia. Era o seu hobby. Jonas era escritor, formado em jornalismo e estudante do que chamava de ¿tudo¿. Enquanto agachava desajeitado, com a prancheta em mãos e os olhares atentos, provocava a noiva. ¿ Por que pensamos? Por que nos perguntamos quem somos e de onde viemos? Que traços evolutivos são esses que nos levam a perceber detalhes muito além dos meramente físicos? ¿ Isabelle ouvia em silencio e com atenção. Com seu noivo era mais fácil pensar nessas coisas.

Para Isabelle, Jonas estava certo. Ele havia encontrado o mistério que anos de laboratório não revelam. Isso não só não foi eliminado pela mãe de todas as coisas,como foi aperfeiçoado no correr das eras. Uma joaninha tem pintinhas pretas, um pássaro, plumas amarelas, um lagarto, língua comprida, um homem,imaginação. ¿ É verdade Jonas. Damos significados a tudo. Se não o fazemos conscientemente, o fazemos inconscientes. É a nossa natureza.

Jonas terminou de detalhar um tomate e sentou-se sobre folhas secas deixando a prancheta de lado. Isabelle terminou de recolher as roupas e as guardou numa bacia em cima de uma mureta que dava passagem ao quintal. Uma aranha caranguejeira atravessou furtivamente o chão da área de serviço. Ele levantou uma pedra e miríades de insetos deslizaram sobre o chão para todos os lados. Ela passou a mão sobre a barriga que amadurecia um filhote ainda celular, que seria num dado momento uma menina.

O homem concentrou-se num tatu-bola que parece não ter percebido o apocalipse de seu universo. Isabelle soltou Kali, a labrador caramelo da casa, e a cadela correu feliz pelo jardim,fazendo o ragnarok das aves e de outros pequenos animais que visitavam o estabelecimento. A aranha entrou debaixo da máquina de lavar roupas. As nuvens encobriram o céu e uma réstia de sol feneceu sobre os traços no papel. ¿ Vai chover querido. Vamos para dentro. ¿ Ela disse virando as costas. Ele enfiou o lápis no bolso da bermuda e a seguiu.

Isabelle entrou sorrindo, pensando em qual seria o seu propósito no universo. Jonas entrou pensando em qual seria a relação entre a forma do tatu-bolinha e dos planetas que vagueiam pelo espaço. Kali latiu e passou correndo pelo casal, entrando na casa. A chuva apressou suas gotas engrossou seu caldo. Eles pregaram o desenho junto com os outros na parede da sala, um mural artístico quase infantil, e foram fazer os trabalhos que tinham levado para casa. O tema da próxima semana seria gestação.

::: postado por Luiz C.: lunes, febrero 26, 2007, horário de Luanda, África
Posición:
Página inicial



viernes, febrero 23, 2007  

Universidade do outono

A foto tinha ficado realmente boa. Parecia uma pintura. Para ele, as pinturas mais desenvolvidas eram as que, pintadas à mão, num estilo renascentista, mais parecessem reais. E as fotos deveriam se parecer com pinturas da renascença. Ela tirava boas fotos, fazia boas visitas e tinha maneiras de olhar que também eram muito atrativa. Não pensava sobre isso nas fotos, mas compunha o mundo como um monte de fragmentos em um quebra-cabeça caótico. Era também uma espécie de imagem.

Ele gostava de construir as coisas bem devagar. As vezes ele destruía, com uma sensação de tristeza profunda. Admirava uma boa conversa e viajava sempre que podia, de carro, do ônibus, de avião, de memória ou de idéia. Gostava muito da presença dela. Nunca exigia. Apenas gostava e sentia.

Era mais uma fotografia para a grande parede da sala, já cheia de porta-retratos cobrindo o papel estampado. O sol de 16h, que é um dos melhores sóis para refletir no quintal, entrava pela varanda amarelando o sofá. O cinzeiro cheio de tocos de cigarro e cinzas dava um aspecto de calmaria no ambiente. Alguns livros sobre a mesinha de vidro no centro também. A idéia dos montes de retratos era dele, as fotos eram dela, e algumas eram de família. Era um retrato da diversidade que ela fazia e da observação que ele elaborava. Quase moravam os dois ali. Mas não eram uma família.

Era todo um cenário. Ele o construiu para poder refletir melhor. Ela o compôs para espairecer. Era assim que imaginavam a própria casa, um lugar para pensar, outro para dormir e ouvir música e outro para cozinhar. Quando muito, um assistia televisão na sala, mas isso quebrava o clima. Se a vida era um palco e os homens, atores, então a casa era o cenário principal. E os livros e aquela porção imensa de letras corridas em páginas amareladas compunham e sustentavam toda a cena. Uma palavra vale bem mais que um milhão de imagens. Cada imagem vale mais que mil palavras. Um milhão de imagens vale um bilhão de palavras. Mas uma palavra continuava valendo o que valia antes. É um paradigma quase que mitológico. Era o mundo dele e o mundo dela existindo no mesmo lugar.

Quando toda a confusão do dia-a-dia terminava, nas férias ou nos feriados, exercitavam chocar e misturar os mundos. Sempre simples. Sempre bom. Não havia problemas. Para que problemas? As vicissitudes surgem para mapear a vida como um terreno. O que tinha de ser, seria. O que não era, não havia de ser.

A foto que ele tirou ficou opaca, chapada, não parecia uma pintura, tampouco uma foto, o que o agradou muito. Ela não ligou. Riu. Gostou e pronto. Também iria para a parede. Aquela existência se seguia assim, com tentativas persistentes e simplórias de se alcançar a felicidade. Três passos a frente, dois passo atrás.

::: postado por Luiz C.: viernes, febrero 23, 2007, horário de Luanda, África
Posición:
Página inicial



martes, febrero 06, 2007  

Bicicleta sobre as águas

Num país muito pequeno, numa cidade muito grande, vivia uma moça que se chamava Magnólia e outra que se chamava Marina. Quando houve a transição do comunismo para o capitalismo, apesar de tantas inovações, também de tantas injustiças cometidas, apesar do que era bom tornar-se mal e o que era mal tornar-se bom, Magnólia percebeu que nada mudara realmente. O Sr. Rômulo continuava o mesmo visinho desagradável de sempre; os cães da Sra. Aroldo continuavam adoráveis e belos; sua gatinha, Malhada, continuava independente; os mendigos continuaram mendigos, os loucos, loucos e os velhos, velhos. Muita coisa mudou de nome também, mas continuou igualzinha ao que era antes. Marina era diferente. Não pensou em tudo isso. Continuava apenas querendo ser feliz. Sempre fazia tudo buscando esse curioso estado de espírito. Por isso, os visinhos a adoravam, e não havia quem não fizesse algo para vê-la sorrir humildemente.

Magnólia era enfermeira de uma pequena sede de um respeitável hospital. Nas horas vagas gostava de estudar as pessoas, os animais, o mundo, coisas e mais coisas, movimentos, música, cinema e fotografia, bosques, enciclopédias velhas, e por fim, filosofia. Marina trabalhava na lanchonete do hospital, onde Magnólia jantava quando tinha plantão de madrugada. Gostava de ouvir música, escrever, comer maçã e ouvir pedaços de conversa pela rua. Criava curiosos diálogos. Eram amigas e confidentes. Nos finais de semana estudavam juntas, pretendiam ingressar na universidade, no curso de psicologia. Magnólia, no entanto, nunca tinha tanta certeza sobre se era isso que ela queria. E Marina não se importava com que curso iria fazer.

Um dia foram juntas ao Verdal, um pequeno bosque de um extenso parque que costeava o minguado rio que delimitava a fronteira da cidade. Sorriam e conversavam muito, falavam de comida, de belos médicos, de trabalho e dinheiro, de futuro e de esforços, de sacrifícios e redenções, falavam de Deus, de Deuses e de universos, e eis que ao chegar ao velho salgueiro que bebia das águas do minguado, onde planejavam fazer um piquenique, depararam-se um jovem sorridente andando a toda velocidade de bicicleta. Se fosse apenas isso, tudo bem. Contudo, a bicicleta e o rapaz flutuavam sobre as águas na parte mais funda do rio. Não era um rio tão fundo, mas aquilo mais parecia um milagre. O menino dava voltas, subia e descia correndo sobre a correnteza.

Com um olhar alegre e brilhante, de casaco de capuz, calça jeans e botas marrons, aquele misterioso ser derrapou como se estivesse numa estrada de terra, voltou-se para as garotas encarando os olhos castanhos de Magnólia e pedalou até a margem. Seu nome era Gabriel. Ele se apresentou muito alegremente, e de uma maneira solene, arcaica, engraçada e tão educada, que até mesmo Marina, que era uma menina muito desconfiada com desconhecidos, quis saber o que significava toda aquela loucura. Com ternura, Gabriel disse que vinha procurando as duas por um tempo e falou que apesar de estar num pequeno país, a cidade era muito cheia, e por isso nunca conseguia surpreendê-las na hora e no lugar certo.

O menino desceu da bicicleta e começou a costear a margem enquanto as senhoritas seguiam em direção a ele. Magnólia e Marina estavam hipnotizadas por aqueles cabelos longos e aqueles olhos pretos, tão profundos e brilhantes que se podia ver de perto toda a galáxia de Andrômeda ali. As mãos de Gabriel eram firmes, e seguravam com presteza a bicicleta. Havia uma mochila verde, velha e remendada amarrada na garupa. Marina observava os passos do rapaz, e seu caminhar era tão sóbrio e firme que ele parecia nunca escorregar ou cair. Gabriel contou a elas que veio por que elas estavam procurando por um animal desconhecido do qual não sabiam o nome e nem mais nada a respeito. Ele poderia ajudá-las com isso. Como as garotas não procuravam animal nenhum, disseram - Como assim um animal? Não procuramos animal no dado momento senhor. - Marina tomou a frente. - Sim. Vocês procuram. Só não sabem que procuram. - aquilo fez tanto sentido que Magnólia sentiu-se pálida e pensou que ia desmaiar. Marina recuou para trás da amiga convencida de que procurava algo. Ela quase sabia o que era.

- O que você quer dizer com isso, Gabriel? - perguntou Marina. Gabriel parou a bicicleta, virou-se para a magra menina, sorriu, afastou o cabelo loiro caído sobre a face da jovem, olhou bem dentro dos olhos dela, sorriu de uma maneira que elas já sabiam que ele sorria mas que só ele conseguia nesse mundo, tão encantadoramente que paralisava, e começou a falar enquanto acariciava aquele rosto lindo. - Você também tem estrela nos olhos. Eu pude ver Aldebaran nos olhos de Magnólia, e agora vejo nos seus, Castor e Polox.

Era estranho aquilo, pois Marina era do signo de Gêmeos, e tinha um olho verde e outro azul, e um sorriso que parecia loucura, e apertava a face de uma maneira tão ingênua que parecia criança, e falava como se fosse mulher. E Magnólia, com Aldebaran nos olhos castanhos, era de Sagitário, com ascendente em Touro. Falava como se fosse criança, mas tão decidida que parecia mudar o mundo ao dizer algo. Seus cabelos lisos estavam quase sempre amarrados, revelando a palidez em sua face E eram duas amigas tão amigas e tão diferentes e tão parecidas que ninguém sabia como se entendiam.

Gabriel continuou - Quero dizer que se alguém tivesse fotografado esse animal, vocês não acreditariam nele. Seu eu levasse vocês até ele, e vocês sentissem o pelo dele na pala de suas mãos, vocês não acreditariam também. Quer dizer que cada uma de vocês deverá achar essa criatura sob o céu e só, e devem no entanto se manter unidas. Eu estou aqui para ajudar a identificar pistas. Quem me mandou foi Malaquias, e é tudo que devem saber por agora. E eu preciso de um lugar para ficar...

Gabriel desceu o pé da bicicleta de um modo cuidadoso, virou-se para Magnólia e a abraçou. Os braços do desconhecido envolviam a garota e o mundo parecia ir parando enquanto isso. Ela não teve tempo de abraçá-lo. Quando seus corpos quase se encontraram, a jovem fechou os olhos involuntariamente, e lembrou-se de seu pai que morrera doente antes da transição, e de sua doce mãe, que a abandonara, fugindo dos comunistas. As pernas da garota bambearam. Desenhos infantis passaram voando pela sua mente. As gotas de chuva que escorriam pela janela do quarto, que a divertiam quando estava doente e de cama, uma criança depressiva esperando pela mamãe que não voltava nunca, as páginas de todos os livros que já havia lido folheavam em ventania, então o tempo voltou a correr. Magnólia enfim abraçou Gabriel e chorou em seus ombros. - Está tudo em sua mente, pequena Magnólia. Tudo em você, pequena irmã. Aí está o contrário da dúvida. A garota respirou profundamente e se recompôs em poucos segundos.

- Você é diferente, Marina. - disse Gabriel voltando-se para ela. - Foi você que se apresentou para Magnólia. Meu Pai estava observando vocês aquele dia. Foi por isso que ele me mandou aqui. Essa é uma missão que era minha, e agora é nossa. Magnólia vê o mundo dentro de si, você o vê de fora. Por isso se perde tanto. Mas também é por isso que conhece tão bem caminhos que tão poucos ousaram visitar. Por isso não tem medo de pensar. - Gabriel completou a frase segurando com delicadeza nas mãos da jovem. O rapaz parecia um anjo enquanto falava. Os finos dedos da jovem formigavam. Magnólia pegou a bicicleta seguiu na frente. Gabriel puxou Marina para junto de si e a beijou longamente, no lado esquerdo da boca, e Marina não se moveu. E ela estava só, no espaço sideral, na Lua distante, deitada no chão contando estrelas com Gabriel. E a terra era crescente, e não havia problemas, embora estivessem todos ali. E de repente estava nua, e se derreteu por entre as pernas, e abriu os olhos, e estava, sem perceber, seguindo os passos do rapaz que caminhava firme. Magnólia caminhava ao lado de Marina. Gabriel é quem levava a bicicleta agora.

Ao dar conta de si e de que, embora meio inconsciente, já havia caminhado bastante, Marina apressou o passo e segurou nas mãos do rapaz dizendo - Vá para minha casa. Por favor. Fique comigo lá. O que você fez comigo agora foi tão bom. O que foi aquilo? Gabriel olhou para o horizonte, diminuiu o passo, disse que sim, que iria, sentiu uma lufada de vento que ondulou os cabelos de todos ali, e completou - Eu não fiz nada. Apenas mostrei você a você. O resto foi você quem imaginou. Ficarei uma semana na casa de cada uma de vocês, por dois meses, então partirei, e uma ficará enquanto a outra irá comigo. Gabriel virou-se para um buraco grande em um barranco e seguiu entrando. As meninas entraram atrás, então quando se deram conta, saiam do elevador no prédio de Marina. A bicicleta estava parada em frente a porta, como se ninguém houvesse tocado nela.

Magnólia abraçou Gabriel mais uma vez, mas agora contente e aliviada, segurou nas mãos do rapaz com simplicidade, voltou de costas para o elevador e disse - eu acho que entendi. Você vem comigo na semana que vem. Marina destrancou a porta e o elevador desceu com Magnólia. Gabriel ficou olhando para trás, vendo o elevador partir. Marina pegou a mochila, o puxou para dentro e fechou a porta. A luz do corredor se apagou. O barulho do elevador cessou.

::: postado por Luiz C.: martes, febrero 06, 2007, horário de Luanda, África
Posición:
Página inicial

- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃ. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro) e Feira (Neto).

- Hasta siempre...

Luiz, 23, jornalista.
Latino-americano de espírito, Luiz Calcagno Fettermann nasceu no dia cinco de outubro de 1982. Desenvolveu este blog com a finalidade de publicar seus textos e examinar a progressão técnica do que vem criando desde os 12 anos. Este espaço é um laboratório literário pessoal. A permanência dos textos está sujeita às alterações de humores do autor.
Mariana Proust, Brasília, 25 de Maio de 2005

[Imagem] :::

[Cronologia] :::
[Meus amigos] :::
[Índice] :::