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-Biene viendo...
martes, enero 23, 2007
No princípio foi o fim
Ayumi chorava no colo do avô. Sem pai, nem mãe, nem irmão. Sua família foi levada por um acidente fatal. Os três voltavam de São Paulo, estavam em Valparaíso, quase chegando em Brasília. Ayumi não pode viajar. Ficou com o pessoal da comissão de formatura organizando o baile para os formandos do terceiro ano. Pediu muito para ir, para que seu pai esperasse mais uns dias, mas sua tia estava doente e hospitalizada, e sua mãe quis apressar a partida. Disse para a filha ir de avião depois, mas a jovem ficou revoltada e se negou a viajar só.
Agora, além do baile de formatura, Ayumi tinha que ajudar na organização do velório. Estava desesperada. Depois do café da manhã, antes da reunião da comissão, sentou na sala de estar, viu suas coisas na mala ao lado da porta, pensou que a vida ia mudar muito e sem a sua permissão, e começou a respirar ofegante. O sábio senhor Akira pareceu intuir os sentimentos da neta. Sentou-se ao lado da garota e a abraçou. Ayumi começou a chorar soluçando, encolheu as pernas e deitou-se no colo do avô.
O velho lembrou-se da solidão que sentiu ao perder a esposa. Foi à última grande dor de sua vida. Agora perdera o filho, o neto e a nora, mas já estava sóbrio e deveras acostumado a lhe dar com um espírito que também lhe era cada vez mais chegado, a derradeira. Mas isso não o fazia não ficar triste. Era hora de erguer a cabeça da neta, pois não estaria ali para sempre. A jovem vertia em lágrimas a revolta, sentia saudade, sentia vazio, sentia fraqueza, solidão. Quando tinha vontade de rir de uma lembrança amena, sua tristeza multiplicava-se por mil. Ayumi sentia raiva. Raiva de si, pois brigara com os pais uma semana antes do acidente; raiva da vida, por parecer tão dura sem motivo aparente e raiva de algo que a jovem não sabia explicar o que era, mas que a corroia por dentro.
Não era raiva que ela sentia. Era tristeza. Encolhida em sua melancolia, Ayumi começou a respirar melhor, e seu avô a ajudou a se sentar. O telefone tocou. Akira atendeu um dos garotos do colégio e passou para Ayumi. A menina tentou não atender, mas o avô a forçou.
- Oi Ayumi. Aqui é o Igor. Não estou fazendo parte da comissão, mas sua amiga Mara me falou do seu problema. Pensei que eu podia te ajudar. Fico com o que você precisar de ajuda na comissão e você me deixa ser seu motorista... E sobre o que te aconteceu, eu sinto muito por você. Sinto mesmo. Queria poder fazer alguma coisa... O pessoal do terceiro-A está mandando um abraço.
Ayumi conteve o choro com dificuldade. Juntava fôlego para responder ao garoto. Ela se lembrava dele. Era o menino forte que estava na festa e saiu mais cedo na sexta-feira. Tinha chegado da Venezuela há um mês. Ele a chamou para dançar, ela não quis; pediu para deixá-la em casa no fim, ela agradeceu, mas negou. Minutos depois ela o viu se despedir dos amigos e ir embora. Ele tinha um olhar compenetrado, e parecia sempre feliz, mas ao sair estava desanimado. Mesmo no telefone, falando com ela, ele emanava uma aura de força. A garota conteve as lágrimas.
- Pode sim... Desculpe pela festa.
- Não liga pra isso. Nem me lembrava. Vou te ajudar a resolver tudo...
- Ta bom. Beijo.
Igor ficou surpreso com o "beijo". Sentiu uma ponta de alegria e despediu-se carinhosamente. Seu Akira ficou um pouco enciumado, mas acho graça do próprio sentimento e não perguntou nada para a neta. Ayumi sentiu-se aliviada por falar com alguém. Algo floresceu no coração da menina, mas ela nem percebeu.
::: postado por Luiz C.: martes, enero 23, 2007, horário de Luanda, África
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sábado, enero 20, 2007
Sonâmbulo
Folhas secas no jardim,
Ventania no quintal,
Giz de cera pelo chão,
Sentimentos no varal.
Esperança na alvorada,
Solidad no solar,
Sorrisinho no almoço,
Indecências no jantar.
Um caminho de vivências,
De procuras incesantes,
Minhas marcas de nascença,
São o mapa do obstante,
Um gracejo de menino,
Alguns livros na estante.
::: postado por Luiz C.: sábado, enero 20, 2007, horário de Luanda, África
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martes, enero 16, 2007
O novo mundo
Era bom antigamente, quando Ksyêniya, aos seis anos de idade, podia brincar despreocupadamente em frente a sua casa na W3 Sul. Ela, a irmã mais nova, Álya e a mãe, Tánetchka iam ao parque da cidade andar de bicicleta. A memória ainda é fresca na cabeça de ksy. Naquela época todas as cidades eram habitadas. Haviam ruas, a população era superpopulação, e não núcleos de delicada sobrevivência, muitas vezes violentos, sectários e fanáticos. Quando tudo mudou, ficou clara a falta de poder do homem.
Aqueles asfaltos revirados e aqueles esqueletos pós-apocalípticos de construções que ilustravam o novo estilo de vida nômade de uma humanidade bárbara, aquele deserto urbano encerrando perigos dos mais variados tipos e animais selvagens que começavam a se esgueirar pelos antigos edifícios eram a nova vida de Ksyêniya. O novo mundo. Nasciam grupos que agiam na "sociedade" como uma mescla de seita e gangue, e era melhor ficar longe deles se você fosse algum humanitário ou idealista. A situação mundial era, em geral, parecida.
Ksyêniya e sua irmã faziam parte agora da Geração intermediária. Eram jovens no período médio entre a nova barbárie e o velho estilo de vida passivo do ocidente. Os idosos estavam desaparecendo por enquanto. Boa parte dos nenéns também morriam. O cenário se agravava enquanto antigos citadinos lutavam para sobreviver na miséria. Nada mais era como antes.
Mas Ksyêniya, aos seis anos de idade, pôde brincar despreocupadamente em frente a sua casa na W3 Sul. Aquela memória ainda era fresca. Sua irmã estava em algum lugar na Rússia, ela acreditava. Álya estava passando uns tempos com os avós quando o mundo mudou. E Ksy sentia falta de estar com sua irmãzinha. No alto de um antigo prédio na 107 Sul, onde morava com um grupo de idosos, a russa admirava a lua, o céu e as estrelas. Espetáculos imutáveis. A garota escrevia e planejava passo a passo o que fazer...
Lista de planos de Ksyêniya
1 - Viagem a moda antiga para o Espírito Santo
(Lá é o único lugar onde barcos aportam na América Latina)
2 - Examinar a possibilidade de fazer contato com alguma gangue
(assim posso ter lugares para ficar durante o caminho)
3 - Arrumar um guarda-costas
(Uma menina não pode viajar sozinha nos dias de hoje)
4 - Arrumar uma motocicleta
(Vai ajudar a acelerar a viagem em pelo menos três dias)
5 - Levar somente o necessário
(Objetos de ouro podem servir para trocas ¿ tenho um anel, uma tornozeleira e uma correntinha) ...
::: postado por Luiz C.: martes, enero 16, 2007, horário de Luanda, África
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lunes, enero 08, 2007
Adeus ano velho
Muita coisa passou para Caetaninho. O mundo deu mais uma volta completa em torno do sol. Nada mais era igual. Amores não eram mais iguais, trabalho não era mais igual, a ótica do mundo já não era mais a mesma. Diante do mar, solitário, encantado com o imutável espetáculo proto-histórico da natureza, o rapaz refletia.
Havia um ano, ele se lembrava muito bem do primeiro dia, do dia primeiro de janeiro, e foi a primeira vez que essa memória esteve tão clara em sua mente. Este ano ele teria também, muito provavelmente, os primeiros minutos frescos em sua cabeça. Era dia dois, 17h e alguma coisa, o céu estava nublado e o mar se confundia com as nuvens no horizonte. Belo horizonte. Imerso em reminiscências e planos, Caetaninho meditava.
Tanto mais coisas haviam entre o céu e a terra que podemos imaginar. Assim disse o bardo. Caetaninho tentava imaginar alguma dessas coisas para provar para si mesmo que era verdade esse mistério. Era um prazeroso esforço mental realizado cada vez mais em todas as atividades do nosso herói. Naquele momento, diante do mar, na areia da praia, ao som trovoante das ondas, o garoto sentia que o momento era propício para refletir. Sua mente perseguia lembranças, virtudes, planos e inexplicáveis eventos que acontecem na vida e que geralmente nos esquecemos propositalmente.
Concentrado naquele evento, tão feliz consigo por estar ali que sentia-se parte inseparável do cenário, Caetano sentia que seu coração era capaz de compreender muito do que nossa vã filosofia não imagina. Imerso em séria alegria, Caetano sentia a maresia e a areia em sua pele. Vez ou outra passava por ele um caminhante ou alguém correndo. A cabeço de Caetaninho foi subitamente virada para cima e um beijo apaixonado, roubado, cheio, foi desferido nos lábios do rapaz. Era sua Michele. Feliz com seus cacheados cabelos castanhos. Vinha dar combustível ao coração de nosso camarada.
Eles se olharam sorrindo. Michele sentou-se docemente ao lado de seu querido. Uma onda quebrou com força levando a água salgada até bem perto dos pés dos jovens amantes. Os olhos do casal brilhavam. Caetaninho segurou a mão de Michele. Os dedos magros da menina apertaram-se com força nas mãos do menino. Caetaninho disse: "Feliz ano novo...".
::: postado por Luiz C.: lunes, enero 08, 2007, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃ. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro) e Feira (Neto).
- Hasta siempre...
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