Casa das mentiras:::

Sangue Latino
(Secos & Molhados)
Jurei mentira s e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos...

-El Blog esta activo desde 18 de Marzo de 2003.

-Biene viendo...



domingo, diciembre 24, 2006  

Especial de Natal Casa das Mentiras

Marina estava no aeroporto, aguardando. Simplesmente aguardava. Nenhum parente, nenhum namorado ou namorada, nem sinal de vôos. Muita gente vivendo 36 horas de espera. No portal da sala de embarque, alguns afortunados despediam-se, com lágrimas nos olhos ou saudade na ponta dos dedos, ou ambos. O trânsito de pessoas, o estresse e a espera prevaleciam no pátio do aeroporto JK.

A menina esperava encontrar o avô, o Sr. Valentim. O único que ainda estava vivo na família. Vinha de NY passar o dia 25 com a neta, que educara e projetara para o sucesso financeiro na vida. Sucesso financeiro... Grande espírito de Natal. Atualmente a jovem psicóloga esperava um pouco mais de si e da vida do que uns trocados a mais. Ter dinheiro para a gasolina, cigarros e umas garrafas de vinho do porto não são exatamente o que vai preencher o ser humano.

Com os atrasos, a solidão infringida pelo espírito do aeroporto tornava a todos reflexivos. Ninguém suporta bem ficar tanto tempo sozinho consigo mesmo. Ter espírito de Natal para com os outros é bem mais fácil do que ter consigo mesmo. Imagine, se olhar no espelho e dizer - Um feliz natal para você! - de coração. É quase impossível nos dias de hoje. Nunca nos desejamos um feliz Natal. Será que não merecemos?

Como o Caos nos aeroportos não é exclusividade da TAM, o vôo do Sr. Valentim estava parado na Cidade do México. Enquanto isso, Marina, 25, que acabara de se divorciar, com um carro que ficaria uma semana estacionado ali perto, com antidepressivos na bolsa, sentada na cadeira, esperava o vôo para Belo Horizonte, onde se encontraria com uma prima distante, já casada. Era uma tentativa esforçada de reunir uma família já esfarelada. Haveria uma ceia com Sr. Valentim, sua querida e entristecida neta Marina, Eulália e família (Jonas, 45, Juliana, 15, e Renato, 10).

Marina estava sentada na cadeira com um fôlego choroso guardado no peito quando um Papai Noel sentou-se cansado ao lado da mulher. O bom velhinho pediu licença, colocou a barba toda no queixo e acendeu um cigarro. Marina apertou a mala nos pés, lembrou-se de ter pego o marido com outra no sofá de sua própria casa, apertou os joelhos um no outro, e então abraçou o homem fantasiado como se fosse uma criança.

Obviamente o senhor falso Papai Noel estranhou, mas sentiu um abraço tão caridoso que não teve outra escolha se não passar o braço por sobre a magra donzela e abraça-la também. Marina fechou os olhos e começou a viajar por sua vida, por seus sentimentos e sua mente, numa tentativa inusitada de dar a volta por cima. Viu os problemas de fora, comparou o momento com a vida, pensou em suas capacidades, escalou uma montanha dentro de si e, abraçada naquele veludo e naquela barriga postiça, alcançou um pouco do estado de espírito de aventureira que perdera aos dezesseis anos.

Naquele momento foi feita a primeira chamada para o seu vôo. Marina levantou-se, pegou sua mala, sorriu para o homem e disse: "Obrigada Papai Noel!". E saiu pensando que merecia um feliz Natal também. A sua posição no mundo não era tão má assim. Uma grande mudança se operou em Marina naquele dia 24.

"Não enxugue tuas lágrimas antes de enxugar as lágrimas do último dos homens."
HPB

::: postado por Luiz C.: domingo, diciembre 24, 2006, horário de Luanda, África
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miércoles, diciembre 20, 2006  

Realidade paralela

Beatrix falava e pensava tanto em espanhol que já estava quase esquecendo sua língua natal. Já Jonas, não tinha muito problema com línguas. O casal, com suas mochilas e suas roupas de vivas cores continuava a viagem em trens, carrocerias, ônibus e caminhadas. Sempre objetivos, iam aos vilarejos indicados e ficavam o tempo estritamente necessário, depois passavam uma semana fazendo algum turismo, mas somente se durasse esse tempo todo, tudo calculado, e então partiam novamente.

Dessa vez estavam no Chile, com uma senhora troncuda, baixinha, muito sábia e tão rabugenta quanto. Ela mandava o casal fazer coisas separadamente, e quase não tinham tempo de ficarem juntos. A velha disse que iriam para a Guatemala depois, assim que aprendessem a trabalhar até a morte e compreendessem o valor do tempo. Iriam se sobrevivessem, sempre especificava.

A noite, quando estavam exaustos, sentavam-se com seus pijamas na varanda e podiam ficar um pouco juntos para olhar as estrelas. Quando a velha saia à noite, para fazer ao se sabe o que, só voltava as dez da manhã, então, o casal dormia junto, quando não, dormiam onde a senhora mandasse, do jeito que ela mandasse, e as vezes: se ela mandasse.

Ficavam no meio de um campo verde, distante da cidade e próximos a um rio que não me recordo o nome, onde havia uma cachoeira caudalosa e bela. A velha chegou às dez da manhã do dia seguinte. O casal havia deixado café da manhã pronto e varrido a casa, como era de costume. Naqueles tempos ficavam tão ocupados que não sentiam falta de tecnologia. As vezes até se esqueciam de descansar.

- Bibi, minha filha...
- Sim senhora!
- Está vendo aquele cesto ali? Quero que você ande em linha reta em direção ao leste até o por do sol enchendo-o de folhas de chá. Escolha as melhores, e se não estiver cheio e bem pesado, melhor não voltar...
- Sim senhora.
- Joca, meu querido, você irá à cachoeira comigo. Lá te darei umas lições. Vai ser bom, porque o barulho da água vai impedir que visitas indesejáveis ouçam seus gritos de agonia.

A senhora riu com sadismo.

- Sim senhora.
- Os pombinhos tem meia hora para se despedir. Beatrix, você não tem o direito de parar para descansar ou beber água enquanto durar a sua caminhada. Quero que ao fim dessa prova você fique doente por uma semana. Quero que suas pernas se dobrem de cansaço. Vamos ver se consegue se sair dessa bem.

Ficaram debaixo de uma figueira conversando um pouco. Todo dia podia ser o último dia, então davam muito valor àquelas partidas. Se abraçavam, se beijavam, eram amigos de todo o coração e se olhavam nos olhos com franqueza e gratidão, como irmãos. Beatrix estava com receio de que tivesse que ficar muito tempo. Mal sabia ela que a curta prova de Jonas, que se recuperaria em breve, seria ainda assim terrivelmente pior.

::: postado por Luiz C.: miércoles, diciembre 20, 2006, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃ. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro) e Feira (Neto).

- Hasta siempre...

Luiz, 23, jornalista.
Latino-americano de espírito, Luiz Calcagno Fettermann nasceu no dia cinco de outubro de 1982. Desenvolveu este blog com a finalidade de publicar seus textos e examinar a progressão técnica do que vem criando desde os 12 anos. Este espaço é um laboratório literário pessoal. A permanência dos textos está sujeita às alterações de humores do autor.
Mariana Proust, Brasília, 25 de Maio de 2005

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