Casa das mentiras:::

Sangue Latino
(Secos & Molhados)
Jurei mentira s e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos...

-El Blog esta activo desde 18 de Marzo de 2003.

-Biene viendo...



miércoles, agosto 23, 2006  

Como se fosse primavera

A primeira vez que atirou, Heloísa pensou que fosse morrer. Muito nervosismo, o coração a mil, dificuldades para manter o olho aberto, tremedeira nas pernas e fraqueza nas mãos. Sempre muito pacifista, nunca havia se imaginado nessa situação. Ainda bem que seu alvo era uma latinha, não um inimigo. A presença de Severino, que segurava os braços de Helô por trás, garantiu uma pontaria certeira para o primeiro disparo.

Foi assim, uma semana numa fazenda distante, massacrando latinhas, arrastando no barro, correndo, saltando, cozinhando e recebendo os fugitivos, que também começavam a atirar, lavar e fazer à Comunidade Revolucionária Comunista do Norte funcionar. Juliana e Ronaldo chegaram domingo a tarde, muito cansados. Houve uma festa. Por enquanto, apesar da perseguição política, estavam novamente crescendo em idealistas, aprovação pública e território.

Era incrível como numa situação de revolução, ainda havia espaço, e muito, para alegria, fraternidade e amor. Era naquilo que os revolucionários acreditavam. E tocavam e cantavam músicas, e havia mulheres com filhos, e maridos e esposas, e filósofos, e poetas, e Heloísa, com os olhos fixos na determinação de Severino, que, por sua vez, tinha a mente em dois objetivos, a prosperidade do movimento, e os lábios da jovem antropóloga, idealista e partidária do movimento, sua prenda, a doce Lola, ou Helô, ou Heloísa.

E naquela noite, retirando-se da mesa de Gilberto e de outros líderes, Severino limpou as lentes dos óculos, coçou a barba por fazer, encarou a antropóloga e andou em direção à porteira, passando pelas barracas e conferindo se a recruta o seguia. Parou olhando para o céu nublado e para a lua cheia que insistia em aparecer, e a menina surgiu ao seu lado antes que percebesse.

- É uma noite bonita, não é Helô?
- É. Embora nublada, com uma Lua bem cheia.
- É, e sob a luz dessa lua, meus dois ideais.
- Como assim Severino?
- Olhe para mim Lola... Olhe nos meus olhos!

Embora não houvesse claridade o suficiente para perceber, a expressão da menina não negava que estava corada. A jovem segurou os dedos de Severino. E ele, com a outra mão, puxou sua amada e deu-lhe um beijo longo e carinhoso. Nas mesas, cantavam alto "Soy Loco por Ti América".

- Não sei se é hora para dizer, Heloísa, mas eu te amo.
- Eu te amo Severino. Que nosso amor não cegue nossa visão.
- Não vai cegar minha querida... não vai cegar.

::: postado por Luiz C.: miércoles, agosto 23, 2006, horário de Luanda, África
Posición:



martes, agosto 15, 2006  

Na solidão do Campo da Esperança

Caetaninho segurava o gesso da mão direita enquanto olhava para o túmulo de sua jovem prima. Olhava concentrado. Era uma daquelas visita inesperada, das que ele adora fazer, só que a um lugar pouco usual. Não foi sofrer ou chorar, não foi lamuriar a distância da querida prima que jazia ali. Foi ao cemitério porque tinha percebido uma coisa digna daquele cenário. Pelo menos simbolicamente. A mudança, o ciclo, a morte de umas coisas para o nascimento de outras.

Três meses depois de a prima de Caetaninho, Vera, morrer, nasceu Márcio, o sobrinho do jovem. Assim são as coisas da vida, e o que era luto virou primavera.

Por isso Caetaninho estava ali, diante da sepultura da prima, sob o por do sol, no meio do Campo da Esperança, entre tantos outros túmulos, com os olhos fixos na foto de Vera, concentrando-se para fazer com que um filme sem trilha sonora passasse em sua mente, a história de cinco anos de vida desde o dia que Vera descobriu que tinha câncer, até o dia que, numa fortuita queda de bicicleta, o jovem quebrasse o braço.

Se pensássemos em larga escala, veríamos que é pouco tempo. O que são cinco anos, por exemplo, para quem completa 65? Mas para Caetaninho, era um quinto de vida. Deu pro mundo mudar bastante. As mudanças físicas na rodoviária, nas W3, no parque, no metrô, em lugar nenhum da cidade, eram realmente significativas, principalmente para alguém que nunca saiu de onde nasceu. Mas mesmo assim, parado ali, tudo parecia completamente mudado. As mudanças internas foram tantas, foram tantas as faxinas, as reformas, as coisas quebradas, trocadas, adquiridas e perdidas, que ao olhar para Brasília, nada era mais a mesma coisa.

Há dois dias Caetaninho foi ao aeroporto se despedir de uma amiga que partira para Serra Leoa. Uma pessoa querida e íntima do nosso herói. Bastou isso para que o mundo (Brasília) mudasse completamente.

Na verdade, com a partida brusca de alguém importante que desapareceria no mundo como se morresse pelas metades, e reavivando tardiamente lembranças da querida Ingrid, Caetaninho resolveu observar sua ampulheta e só então viu quanta areia tinha caído. Quantas vezes o caleidoscópio havia girado enquanto ele tentava repetir uma imagem que jamais se repetiria.

E então Caetaninho sorriu e entendeu que ele não era mais o mesmo. Que nada mais era igual ao que tinha sido antes. Mais adiante, perceberia também que tantas mudanças, tão radicais, ainda eram pequenas e efêmeras, e que o destino sempre estaria por vir.

Caetaninho girou sobre os calcanhares e saiu cantarolando baixinho uma música que o Caetano, músico, também canta. "As coisas são têm de ser, ninguém é realmente culpado", pensava enuanto balbuciava a canção.

"Você precisa saber da piscina, da
Margarina, da Carolina, da gasolina
Você precisa saber de mim
Baby, baby, eu sei que é assim
Baby, baby, eu sei que é assim
Você precisa tomar um sorvete
Na lanchonete, andar com gente
Me ver de perto.
Ouvir aquela canção do Roberto
Baby, baby, há quanto tempo
Baby, baby, há quanto tempo

Você precisa aprender inglês
Precisa aprender o que eu sei
E o que eu não sei mais
E o que eu não sei mais
Não sei, comigo vai tudo azul
Contigo vai tudo em paz
Vivemos na melhor cidade
Da América do Sul
Da América do Sul
Você precisa, você precisa
Não sei, leia na minha camisa
Baby, baby, I love you
Baby, baby, I love you"

::: postado por Luiz C.: martes, agosto 15, 2006, horário de Luanda, África
Posición:



martes, agosto 08, 2006  

O velho

Raul não era daqueles garotos que desperdiçam tudo. Também não era mimado demais e nem era arrogante, não era muito ambicioso nem era invejoso. Mas a vida está sempre por aí, para provar que o que "é", também pode ser o contrário. O que é amor virá ódio, o que é inimizade vira amizade, e o que é doce e suave, torna-se azedo e áspero e o contrário. O que é novo envelhece, e o que é sábio rejuvenesce

Por anos Raul acreditou que nunca perderia nada do que tinha. Seguiu em frente simplesmente, velejando seu barco pelos caminhos que ele acreditava serem corretos.

Bem, se falarmos de mudança, é preciso saber que o pai de Raul foi embora, e que o avô dele morreu alguns anos depois, e que ele se mudou de casa algumas vezes deixando amigos para trás e fazendo novos, e que depois a avó dele se foi, e que ele terminou a escola, e percebeu que estaria fadado a terminar a faculdade. Enterrou mais alguns parentes. Nada tão trágico, tudo simples, real, cheio de sentido, e às vezes vazio.

Vendo que tudo muda tanto, já diria a Lua, cheia de fases, e lembrando que com tantas mudanças só resta ao mundo a possibilidade de Ser constantemente, Raul noivou, tornou-se psicólogo e virou músico. Se deixou mudar. E foi tantos o quanto fosse possível... Pai, amante, baterista, poeta, estudante, psicólogo, filósofo, foi ciclista, tio, padrinho, estrangeiro, brasileiro, latino, avô e professor. Contraiu febre amarela, pegou pneumonia, teve catapora depois de grande, subiu em árvore, quebrou a perna, cortou o pé, caiu de cara, chorou, sorriu, pulou, dançou, venceu e perdeu.

Quantos anos se passaram... Quantas lembranças os cabelos brancos de Raul já guardava em 2025... Quantos cheiros, aromas, quantas sensações e quantos dias diferentes, quantas alvoradas eram carregadas pelo crepúsculo simples e obstinado que descia cuidadosamente de um carro novo num posto de gasolina... Outrora jovem mancebo, Raul tornou-se uma poesia antiga sobre um país natal agora distante.

O além requisitou Vera, esposa de Raul. As crianças choraram pela vovó, os filhos sentiram a perda da mãe, e Raul constatou mais uma vez que enquanto a vida continuava, ela continuava, e tudo iria acontecer. Não importa a idade, acontecimentos são para serem acontecidos. Até parecia óbvio para Raul, mesmo sob os protestos do coração cansado de um velho. Ele plantou árvores e escreveu livros, viu o mundo mudar várias vezes, tentou colaborar com as mudanças que pareciam ser para melhor, e viu que sua breve existência não era mais que um reflexo daquilo tudo que vinha acontecendo pelas cidades, florestas, países, continentes, planetas e galáxias: a Evolução.

Depois de uma tarde de corrida, Raul voltou para a casa cansado e aliviado. Clara, sua filha mais nova, provavelmente o esperava com um fabuloso sanduíche, e Verne e Lúcia já deviam estar chegado da escola. Moravam os quatro, O Vovô, a mamãe e os filhinhos. Era uma casa de viúvos, pois a caçula da família também perdera o ser amado num acidente de carro. São essas vicissitudes da vida que acabam não sendo culpa de ninguém no fim. Apenas acontecem, igual a tudo na vida. E aquela variedade de gerações e de perdas, de dores e sorrisos, e venturas e amores viviam juntos naquele pequeno e moderno universo de confusões aconchegantes numa casa de esquina em Belo-Horizonte. Era uma casa parecida com as ilhas Fiji, com uma fantástica variedade de seres coexistindo.

Raul sentiu o coração apertar, e sentiu uma dor aguda no braço esquerdo assim que trancou a porta da sala naquela tarde fria e nublada. Verne estava assistindo TV, e não ouviu o avô chegar. Lúcia cantarolava no banheiro, num delicioso banho quente e demorado, e Clara, depois de um dia longo e cansativo de trabalhos, estava mesmo fazendo os usuais sanduíches. E Raul percebeu então que poderia ser a última vez que vivia àquela corriqueira cena, de chegar em casa de moletom e abraçar primeiro a neta, depois a filha, e por último sentar na TV com os braços sobe os ombros do neto, perguntando o que o rapaz tinha lido aquele dia.

A dor foi crescendo, e o velho foi fazendo tudo com calma. Beijou a neta, que pela milésima vez reclamou que estava limpa e que ele estava todo suado, abraçou a filha, que gostava de por o ouvido no coração do pai e ouvir dez batidas, e sentou ao lado do neto e assistiu um pedaço do desenho japonês, enquanto comia um sanduíche de queijo com tomate e orégano.

Era cada vez mais inegável. Aquele senhor estava tendo um infarto. E Raul ficou cansado demais de repente, e quase não conseguia andar. E sentiu satisfação por ter feito tudo como sempre fez. Já percebia o valor de cada simplicidade vivida depois de tantos anos de perdas e ganhos. Suas memórias eram vívidas e felizes. E ele Tentou se levantar, e então ajoelhou-se sobre o tapete branco e macio da sala, pôs a mão no peito e pediu para Verne chamar a mãe, "rápido!"

O Sol se punha no horizonte quando uma ambulância partiu com as sirenes ligadas. Lúcia entrou chorando baixinho, e Verne trancou o portão. No veículo, Clara e Raul se olhavam como se entendessem algo mais. E toda a família se telefonava e se mobilizava para lidar com uma nova situação.

(...)Por muitos anos Clara acreditou que nunca perderia nada. Seguia sempre em frente, cruzando estradas tortuosas que ele acreditava serem as mais corretas...

::: postado por Luiz C.: martes, agosto 08, 2006, horário de Luanda, África
Posición:



martes, agosto 01, 2006  

Espíritos, vapores e recordações

Ayumi pensava nas histórias que Igor costumava inventar. Aquelas loucuras filosóficas que lhe pareciam tão sóbrias e arrasadoras. Comas que se transformam em sonhos lúcidos de uma vida que nunca existiu de verdade, infinitas possibilidades de existência, provas contra e a favor de tudo que pudesse ser inventado, "amanhãs" incertos vindos de "ontens" inseguros. A menina tinha decidido acreditar que o mundo real é como um torrão de açúcar na língua do tempo; está prestes a derreter. O Muro de Berlim, a invencibilidade norte-americana, a falsa beleza dos nazistas, a soberania da Igreja Católica... As reflexões filosóficas de Marx diziam bem: "o que é sólido desmancha no ar."

Um professor escreveu a frase do filósofo no quadro negro naquela manhã fria da confusa Brasília. Foi daquelas frases que quase ninguém percebe. Uma sutileza caprichosa do destino para os que estão despertos no momento. E Ayumi estava justo naquela hora, por coincidência, numa aula em que ela nem prestara atenção realmente.

Era noite. A sogra de Ayumi estava fazendo plantão no HUB, Igor devia estar no metrô, a caminho de casa, e a jovem estava preparando um macarrão com molho de tomate para alimentar aquela noite longa e escura. A TV estava ligada na Globo. Na rua, o silêncio e o farfalhar seco das árvores preenchiam o espaço. Uma enigmática figura descia de uma lotação numa parada da L2.

A água na panela com macarrão começou a borbulhar, então Ayumi revirou o macarrão com o garfo, impedindo que os fios se grudassem. As bolhas se reviravam, morrendo na superfície e desencarnando em forma de vapor. Aqueles seres voláteis acabaram, por isso, hipnotizando a filosofa que cozinhava para o namorado.

O volume da TV abaixou sozinho, os dedos delicados da japonesa encostaram o garfo na beira da panela. Os olhos negros e puxados da jovem ficaram fixos naquele calor cinético, a cabeça de Ayumi se debruçou sobre a panela e os cabelos da jovem penderam em meio ao vapor, e nada mais pareceu importar no mundo.

Aquilo sim é que era um retrato do Universo: "bolhas" que emergem do fundo da água alquímica, e se precipitam na superfície do todo, transformando-se em recordação, em vapor, em espírito.

Um barulho de chave despertou a casa silenciosa. Ayumi saiu do transe e virou-se para a porta da cozinha. A sombra cansada do socador bucólico avançou ate que o próprio Igor surgisse cansado a amável, sorrindo para o seu amor. Ayumi estava engasgada com universos, e correu e abraçou seu amado para se esquecer. Funcionou...

::: postado por Luiz C.: martes, agosto 01, 2006, horário de Luanda, África
Posición:

- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃ. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro) e Feira (Neto).

- Hasta siempre...

Luiz, 23, jornalista.
Latino-americano de espírito, Luiz Calcagno Fettermann nasceu no dia cinco de outubro de 1982. Desenvolveu este blog com a finalidade de publicar seus textos e examinar a progressão técnica do que vem criando desde os 12 anos. Este espaço é um laboratório literário pessoal. A permanência dos textos está sujeita às alterações de humores do autor.
Mariana Proust, Brasília, 25 de Maio de 2005

[Imagem] :::

[Cronologia] :::
[Meus amigos] :::
[Índice] :::