Casa das mentiras:::

Sangue Latino
(Secos & Molhados)
Jurei mentira s e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos...

-El Blog esta activo desde 18 de Marzo de 2003.

-Biene viendo...



domingo, julio 23, 2006  

Estrela cadente

Luize era uma menina mirrada. Filha de um ladrão com uma camponesa rebelde, isto é, bastarda e despatriada. Mulher, pobre, bastarda e despatriada. Logo se vê que não teria muita sorte na vida.

Cresceu e virou uma rapariga muito bonita, mas com o sangue que corria em suas veias, ser atraente daquele jeito era pura vocação para prostituta. E a tutora de Luize fazia questão de que a jovem se lembrasse disso. Enfim, não dariam muito futuro para ela. "Essa? Essa logo estará nos portos, fazendo a alegria dos marujos portugueses."

Assim era a vida de Luize. Assediada pelos homens de chapéu e peruca de Lisboa, humilhada pelas mulheres empacotadas e gordas em seus vestidos e espartilhos caros, virgem e ingênua como uma santa, e pobre de "marre-dê-ci". O cão das ruas, porque cadela ela ainda não era. E mais ainda, sustentava a tia, que estava doente. Sustentava e suportava. A mãe? A mãe já havia ido para a colônia há muito tempo. Era o que acontecia com aqueles que não se sentiam satisfeitos com a Coroa. Sua família era uma velhaca fedida e mal criada.

Mas uma noite os soldados foram até a casa da tia de Luize e as expulsaram de lá. Não antes de arrancar alguns beijos forçados da garota. Não antes de darem alguns chutes na bruxa reclamona que insistia em lutar. Foram expulsas porque não pagavam os impostos. Pagavam, mas não o suficiente. Rua da amargura para as que não contribuem com o Rei.

Não era uma noite das mais frias. Mas toda noite vira madrugada, e toda madrugada é fria, em qualquer lugar e a qualquer época do ano.

A menina e a tia vagaram pelos becos à procura de uma estalagem barata e então, antes que encontrassem algum teto sob o qual dormir, Maria, tia de Luize, se foi de vez. Morreu como um tuberculoso, cuspindo sangue e estrebuchando na noite enluarada, no meio de cães sarnentos, de mendigos e meretrizes. Mas não antes de rogar algumas pragas e palavrões contra a virgem e santa sobrinha.

Luize chorou a morte da tia. E sentiu o frio da madrugada endurecer seus ossos. E viu então que era apenas mais uma. Percebeu que a noite era muito mais ampla do que lhe aparentara até aquele fatídico momento. Percebeu que estava numa situação nada única, e que os outros tinham seus próprios problemas. Viu que mãos amigas não são muito chegadas em madrugadas sujas e dores sem conforto. Viu que se não fizesse nada, acabaria num prostíbulo qualquer, ou iria para a colônia, e morreria de sífilis ou assassinada.

Foi então que a jovem menina virou o cadáver pestilento da velhaca Maria e teve uma visão que no futuro não se revelaria uma epifania exatamente religiosa. As estrelas refletiam no olhar opaco da defunta, e as bolas pretas que espelhavam os céus, embora mortas, também refletiam uma imensidão terrível e arrasadora. Um abismo desconhecido e interminável em que se podia flutuar sobre, mas sem nunca saber se seria tragado ou não. Os olhos de Maria pareciam, para Luize, a única coisa com que a menina havia ousado sonhar por toda a vida até aquele momento. Parecia-se com o mar aberto. Com os mares. Com a maré. Com os oceanos que banham essa santa terra. Com praias brancas e paraísos desconhecidos.

Os olhos de Luize brilharam, e ela parecia ser sugada para dentro daquela imensidão negra. Com força. Foi então que a sonhadora virgem foi puxada de suas divagações pelos cabelos e arrastada para dentro de um beco escuro e frio. E os sonhos pareciam presos nos olhos mortos de Maria enquanto Luize não entendia o que estava acontecendo.

Era um homenzarrão forte e bêbado, cheio de desejos, louco para deflorar aquela jovem garotinha, que a seu ver, não devia ser mais valorosa do que uma puta. O homem estava tão fora de si de desejo que sequer percebeu que sua vítima debruçava-se sobre um cadáver quase fresco.

Luize então lutou. Coisa que nunca havia feito antes. E o torpe bêbado encostou uma adaga na goela da jovem, e apertou, sinalizando para a pobrezinha que era melhor dar que receber. Mas um homem que se preocupa em demasia com o pênis esquece-se da espada. E foi o que aconteceu. O carrasco estava com o sabre a tiracolo, e ao exibir o dito cujo com euforia, deixou que a mão e Luize não apenas desembainha-se a lâmina do próprio algoz, mas que ainda pudesse atravessar a garganta do infeliz, varar o cérebro e despontar ensangüentada sobre o maldito, sem dar chance para a dor ou para o prazer, como quem diz que mais vale um pássaro na mão que dois voando.

O líquido viscoso banhou em gotas o rosto da jovem donzela, e aquele ato a transformou para sempre. E Luize sentiu uma indescritível e maravilhosa sensação de liberdade. A sensação de quem não tem nada a perder. E naquela viela portuguesa jazeram dois cães imundos e uma pobre santa sob a luz da lua e a euforia das ratazanas. Luize cortou os cabelos, despiu o homem e se vestiu com novas roupas, com novas idéias, com um novo rosto, com uma nova vida. E foi andando curvada para frente e rangendo os dentes com a mão no cabo da espada. Um costume que carregaria por muitos e muitos anos de sua vida.

Já no fim daquela noite a jovem se tornou Estevan, e assim se apresentou nas tavernas portuárias, em busca de um navio para partir. O sol erguia-se no leste e um destemido e quase anônimo jovem bebia rum com seus novos amigos.

::: postado por Luiz C.: domingo, julio 23, 2006, horário de Luanda, África
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miércoles, julio 19, 2006  

Igor, páginas avulsas...

Estou no metrô. Sentado na cadeira fria escrevendo meu diário. Estou esperando o último trem para o Plano. Sou o único passageiro aqui. É incrível como a estação está vazia. O segurança desce aqui, dá uma voltinha e some novamente. E eu sou um fantasma na estação. De bermuda, mochila preta grande e casaco de moletom, com um capuz enorme enfiado na cabeça e o rosto roxo e ferido. Ninguém diria "claro, é porque ele é boxeador...". No máximo, "que porra é essa me encarando?!"

Ayumi está com a minha mãe, me esperando. E quando sua namorada e sua mãe ficam a sós num apartamento, boa coisa não é, e vai sobrar pra você. Finalmente pude voltar para o ringue. E adivinhe, apanhei feito um condenado e me cansei feito um burro velho. Estou enferrujado. Mas em duas semanas eu recupero.

De resto, tudo vai bem. Não tive mais nenhuma experiência "alquímica" como a da última luta, quando me machuquei. E tenho me preocupado apenas em observar o que há de simples e belo nas coisas que nos rodeiam.

Está muito frio. Frio e seco. Era de se esperar. Coisas de Brasília.

Meu pai chega na próxima semana. Vem passar uns dias aqui. Vamos nos ver, sair juntos, conversar, e não terei nenhum troféu para mostrar pra ele dessa vez. Uma pena. É incrível como conseguimos manter uma boa relação pai e filho, com ele morando ao redor do globo, e eu, no meio do cerrado. Não vejo a hora dele chegar.

A Ayumi e eu estamos planejando de morar juntos. Minha mãe quer ir para São Paulo. Vamos ficar no apartamento na L2. Vai ser legal. Não vejo a hora de ter mais momentos a sós com minha querida garota. Vamos arrumar as coisas do jeito que quisermos, e seremos independentes. Só meu queridos sogro é que não estão gostando muito da idéia de ter a princesa única da casa levada por um "brutamontes socador de paredes", que é como ele me vê. Acho que minha mãe ajuda a convencê-los. Com a fé que ela leva em mim e na Mimi (ela ainda odeia esse apelido, mas já está se acostumando).

Agora meu trem está chegando. Tem um rapaz arrumado e uma senhora que chegaram a pouco. Nenhum deles chegou perto, mas também não esboçaram nenhuma reação de medo e estranheza. Tenho que ir.

Socador Bucólico

::: postado por Luiz C.: miércoles, julio 19, 2006, horário de Luanda, África
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viernes, julio 14, 2006  

John e o capuccino

Ana Carolina Mercedes sentada na cafeteria numa esquina londrina num dia muito frio. A aula de inglês terminou bem mais cedo. A "teacher" teve um AVC durante o primeiro intervalo. A tia de Carol, com quem a menina estava hospedada (e estaria, pelo menos até o fim do próximo semestre), não voltaria para casa até o começo da noite. E Carolzinha tinha perdido as chaves do apartamento. Quanta coisa deu errado aquele dia. Que vontade de chorar. Não havia lágrimas, mas havia aquela respiração forçada.

O aparelho auditivo de Carol estava falhando desde a semana passada. Antes de atravessar a rua para ir para a cafeteria, Ana Carolina percebeu que quase não se podia ouvir o barulho dos carros. E a rua estava bem movimentada. "Meus sentidos vivem entrando em contradição." pensou.

Para completar aquela tarde desgastante, a jovem estava apaixonada por um garoto americano chamado John, que não ligava pra ela, e estava de TPM. "Pensando bem, não são só meus sentidos. Minha vida também parece estar em constante contradição."

Só depois de alguns minutos imersa nesse baixo-astral, foi que Carolina percebeu que a garçonete estava de pé ao lado dela. A mulher movimentava os lábios de maneira impaciente. Já devia estar falando com a estrangeira há algum tempo. Podia ser: "Senhorita, seu casaco está pegando fogo..."; ou, "Você quer se casar comigo?"; ou ainda, "A torta de cerejas está deliciosa hoje."; e também "Que tal você ficar nua em cima dessa mesa enquanto eu grito 'Deus salve a Rainha da Inglaterra'."

Mas Carol fingiu não ligar. Apenas apontou "Capuccino" no cardápio, guardou os óculos e ficou reparando uma senhora empurrar um carrinho de bebê daqueles de cinema do lado de fora, e o casal com quilos de casacos e um imenso guarda-chuva preto, uma senhora cheia de sacolas, um idoso e sua neta, balbuciando um inglês ininteligível, supostamente muito elegante, e os carros, dirigindo do lado "errado", com os volantes completamente trocados.

O capuccino chegou, quente e com um cheiro delicioso. Carol agradeceu sorrindo e aproximou a face do calor que emanava do liquido. Fechou os olhos e aquele ambiente marrom e amarelo, cheio de mesas e vazios, virou capuccino. Era um mundo bem melhor. Não havia ruídos nem falsos jogos de luzes. Só havia um delicioso cheiro de capuccino, e uma merecida calmaria. Com o descuido, a bolsa de Carol caiu no chão espalhando alguns livros e folhas. Um jovem, que Carol não sabia, mas era espanhol, muito bonito e educado, começou a ajudar a menina.

"Por uns instantes não fui estrangeira agora... E ser estrangeiro é uma coisa desagradavelmente indescritível. É como ser um extraterrestre, só que da terra. E esse garoto lindo está sendo um terráqueo comigo. Dá até vontade de mostrar aquela mãozinha do 'Jornada nas Estrelas'." Os olhos da viajante solitária estavam evidentemente inundados, a beira de um naufrágio. Carolzinha agradeceu, o jovem saiu e ela se voltou novamente para John e o capuccino. Não viu que o garoto sentou-se na mesa da frente e a convidou para lanchar com ele. Ou melhor, não viu e nem ouviu.

"Céus! Não quero mais nada... Vou apenas me afogar nessa xícara de capuccino."

::: postado por Luiz C.: viernes, julio 14, 2006, horário de Luanda, África
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martes, julio 11, 2006  

O golpe

O rapaz chega em seu apartamento. Está suado de uma longa corrida. É quinta-feira a tarde e a L2 Sul está movimentada. A mãe reclama em espanhol que ele não devia estar correndo. Sempre que ela está nervosa começa a falar em espanhol. Mas o médico já disse que o menino podia correr. O garoto não dá atenção aos protestos da mãe. E Igor também não agüenta ficar parado. A última coisa que ele quer é ficar parado. Parece buscar por algo. E luta, e age, e tudo o que faz, é em busca de uma coisa, uma única coisa, algo que ele denominou como Única. Ele é o filho único em busca da Única.

O jovem toma um banho rápido e gelado, veste uma camisa cavada, bota uma bermuda e vai para a janela do pequeno apartamento. O segundo andar não proporciona uma vista da cidade como um todo, mas para Igor, é o suficiente. Prefere estar imerso que estar sobre. Assim, faz parte. O jovem liga o gravador, dá alguns segundos e então começa a falar com timidez.

Meu nome é Igor Castañeda. Tenho 24 anos, 78Kg, 1,80m, sou branco, olhos negros e careca. Quando não corto, meu cabelo é preto e encaracolado. Na verdade, acho que meu cabelo é bem curto, mas dizem sempre "aquele, careca"...

Gosto muito de ler, principalmente poesias. Meu poeta predileto é Fernando Pessoa. Dizem que é meio batido. Não acho. Gosto de silêncio, de natureza, de correr e de desenhar. Infelizmente não sou nenhum Picasso, minha arte é outra.


A mãe de Igor entra no quarto e deixa o telefone com ele. "Estou dizendo quem sou eu", o garoto pensa, "mas ainda não disse nada que preenchesse a lacuna da pergunta". Depois que a porta se fecha, o jovem continua a se responder...

Não sou um armário, mas sou o que se pode chamar de bem definido. Terminei a faculdade de educação física e sou boxeador. Bater e levar, eis o que eu mais gosto de fazer. Não sou um campeão invicto, mas não sou dos piores. Tenho algumas medalhas, um troféu e estou sempre treinando e participando de torneios. Sou tímido e tenho poucos amigos. Sou um "socador" bucólico, é o que meu pai costuma dizer.

É por isso que estou fazendo essa gravação. Sempre que luto, me sinto diferente, como se eu me conhecesse mais, embora não consiga explicar, e conheço mais meus oponentes.

As vezes saio e sei histórias dos outros que nunca me contaram antes. E as vezes, quando estou ganhando, começo a sentir os movimentos do inimigo. E é como se eu estivesse perdendo e ganhando ao mesmo tempo. Me sinto invencível.

Nasci em Brasília. Minha mãe é médica, cubana, meu pai é diplomata, argentino. São divorciados. Até os meus 18 anos, conheci boa parte da América Latina. Chile, Venezuela, Peru, Bolívia, Uruguai, Paraguai e México. É isso que considero "boa parte da América Latina". Vi muita coisa, conheci muita gente, ouvi muitas histórias e muitos conselhos, e é a única coisa que tenho para me gabar. E Machupichu é uma cidade em ruínas maravilhosa.

Namoro uma menina, Ayumi, 19, estudante de jornalismo, brasileira de família japonesa. Ela faz poesias e eu leio. É perfeito. São minhas duas paixões, o boxe e a menina. E elas brigam muito. Principalmente a menina.

Não me acho um cara muito bonito. Ayumi diz que é bobeira minha, que eu já devia saber da minha beleza e que eu devia tirar proveito disso. Mas prefiro não me achar. Alem do mais, estou sempre de lábio inchado, olho roxo, supercílio cortado, enfim, "ossos do ofício". Podem até dizer que sou bonito, mas não costumo estar, e me sinto bem assim. No mais, sou um típico menino de Brasília.


Ayumi entra no quarto. Igor não interrompe a gravação. A garota parece saber o que o namorado está fazendo. Ela passa pela bagunça de roupas no chão, vai até a janela e abraça o rapaz. O lutador, no entanto, não sabia que a namorada já tinha chegado. A jovem fica ouvindo com atenção.

Na última quinta estava treinando. Quando terminou, eu e Silas, um gigante, começamos a brincar no ringue. Fomos lutando até que, sem querer, nossos socos ficaram meio sérios. As vezes alguns alunos se estranham, competem. Nunca tinha acontecido comigo. O professor já tinha ido embora e ninguém quis "arriar" primeiro. Resultado, estou a uma semana sem lutar, e só devo voltar na próxima terça. Eu levei o último soco. Eu perdi. Silas não se machucou além do comum.

O último soco entortou minha cabeça para trás até um pouco além do limite. Senti um forte calor na minha coluna e nas minhas orelhas. É assim que acontece o knock-out. O corpo diz, "Ok, você lutou bastante, chegou ao seu limite, daqui pra frente é comigo", e você apaga. As vezes chegamos a sonhar, e as vezes só perdemos as forças. Mas o lutador não volta pra luta. É knock-out. E Silas me deu um gamcho no queixo, e foi knock-out. Sem direito a gongo ou juiz.

Aconteceu uma coisa diferente nessa luta. Demos o nosso melhor, eu levei o último soco, e foi como se eu tivesse dado o último soco, e então tudo ficou claro, e eu caí no chão, e abri os olhos, completamente sem força. Silas e outros alunos vieram me socorrer. Eu não falava nada, nem conseguia. E começaram a me jogar água, então eu reparei que todos eram Eu. Como num sonho maluco, daqueles que não questionamos a lógica enquanto estamos dormindo, só que real.

Eu me viro, então eu me vejo no chão e corro para me socorrer, consigo visualizar todo o caminho, sentir todas as sensações, vou me ajudar. Então eu, que me virou, começo a dar tapinhas no meu rosto, para que eu volte a mim, então eu me olho, e olho para os "eus" que me socorrem, eu olho para mim e eu e eu constatamos que eu não pareço estar de todo consciente. Eu chego para me ajudar e começo a me levantar. Então tudo começa a ficar rígido, como se fossemos de metal, e tudo é muito lento e pesado, e sou tirado do ringue, carregado por mim, se movendo naquela nuvem de chumbo denso, sobre um chão de chumbo, entre cordas de chumbo. Então estou mergulhado nesse chumbo, e sou esse chumbo, e tudo é chumbo, então um alquimista enfia a mão no chumbo, como se eu fosse líquido, e me puxa, e então, estou na cama do hospital, usando uma camisola ridícula, com Ayumi do meu lado. O médico entra e diz que se eu acordei, então posso me vestir e ir embora. Eu seguro a mão da minha menina. É tudo tão leve e veloz, separado.


Igor desliga o gravador. Ayumi beija o namorado. Igor se vira e o casal sai do quarto. Estão despreocupados demais para notar que suas imagens no vidro da janela não se viram, ficam de mãos dadas, encarando suas partes saírem pela porta enquanto desaparecem lentamente.

Sabe, Ayumi, as vezes acho que o mundo é um balde de chumbo. Deus deve ser um alquimista brincalhão.

As vezes acho que você é o filósofo mais estranho do mundo. Você literalmente aprende na base da pancada. E eu te amo. Devo ser a namorada mais sortuda que existe no seu balde de chumbo...

::: postado por Luiz C.: martes, julio 11, 2006, horário de Luanda, África
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viernes, julio 07, 2006  

Atuação

Maria estava em pé no teatro, olhando para o palco aceso, e meditando. A iluminação refletia nas cortinas vermelhas e tudo ficava meio alaranjado. Tudo era silêncio. Um profundo silêncio. Ninguém do lado esquerdo, ninguém do lado direito, ninguém na platéia, ninguém no "picadeiro", ninguém, ninguém, ninguém. Só Maria. Maria corpo alma musa e inspiração. Filha de italianos e extremamente brasileira. Latina. Rebelde. Amante. Menina. Mulher. Mentira e realidade. Maria.

Na cabeça de Maria saltavam palhaços líricos com sotaques de todos os lugares do país. E também tinham personagens de dezenas de escritores: tristes, loucos, sádicos, felizes, infelizes, ladrões, honestos, homens, mulheres, negros, índios, espanhóis, personagens. Personagens, personagens, personagens. Maria conseguia ser cada um deles, e senti-los. Sentia-os como uma criança, com um doce delicioso na boca, salivando, sendo preenchida por uma satisfação fantástica, inacreditável ou simplesmente completa.

"Cada ser é um doce" pensava a garota, "e a vida é a língua que derrete eles."

E Maria ficava ali, em pé, sentindo aquela magia estranha que todo mundo sente quando passeia pelo teatro, quando anda com alguém que conhece o lugar, ou quando simplesmente ama máscaras e encarnações. Dá vontade de chorar de felicidade, vendo a criançada gritar com as palhaçadas infantis de um ator, e vendo Julieta cravar o punhal no próprio peito. E depois parece que tudo que foi encenado está acontecendo ali, no palco, ao mesmo tempo.Centenas, milhares de fantasmas da beleza.

Maria sorria. Os olhos brilhavam, as lágrimas corriam. E na mente da menina, uma melodia regional de ninar reboava. E o mistério continuava lá, atrás das cortinas. Intocável. E Maria simplesmente estava, como todos, hora acima, hora abaixo do palco. Oras...

::: postado por Luiz C.: viernes, julio 07, 2006, horário de Luanda, África
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- Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃ. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

- Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto Livros (Anna Karla), Menina Sentada na Cama (Nara Lacerda), Dedos (Pcastro) e Feira (Neto).

- Hasta siempre...

Luiz, 23, jornalista.
Latino-americano de espírito, Luiz Calcagno Fettermann nasceu no dia cinco de outubro de 1982. Desenvolveu este blog com a finalidade de publicar seus textos e examinar a progressão técnica do que vem criando desde os 12 anos. Este espaço é um laboratório literário pessoal. A permanência dos textos está sujeita às alterações de humores do autor.
Mariana Proust, Brasília, 25 de Maio de 2005

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