Casa das mentiras:::

dois barcos
(marcelo camelo)
é, pode ser que a maré não vire
pode ser do vento vir contra o cais
e se já não sinto os teus sinais
pode ser da vida acostumar
será morena?
sobre estar só eu sei
nos mares por onde andei
devagar
dedicou-se mais o acaso a se esconder
e agora o amanhã cadê?
doce o mar perdeu no meu cantar

-El Blog esta activo desde 18 de Marzo de 2003.

-Biene viendo...



viernes, junio 30, 2006  

Richthofen
(Luiz Calcagno)

Mui bela és tua figura
Morte Ruiva se aproxima
Não te culpo pelos teus crimes
Em meu altar tu és rainha

Sei que é loucura minha
Morte Ruiva e estrangeira
Sei que é loucura minha
Meu amor é só besteira

Mas mesmo assim sonho
Contigo madrugada adentro
Imagino seus beijos quentes
Claudicantes, úmidos, lentos...

Imagino teu corpo branco,
Desnudo, trêmulo, culpado
Minhas mãos quentes passeiam,
Por terrenos nunca d'antes desejados

Morte ruiva e condenada
Richthofen tu és tão bela,
Solitária, poderia ser amada?
Seria meu peito tua eterna cela.

::: postado por Luiz C.: viernes, junio 30, 2006, horário de Luanda, África
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viernes, junio 23, 2006  

4 a 1, o gol de honra e o poder da derrota

Tamada Myura foi pra casa da namorada assistir o jogo do Brasil contra o Japão. Foi com a camisa do time nipônico e com uma bandeira do sol nascente. Não levava fé na vitória, mas ia marcar presença naquela família de Baianos. Nunca mais iam esquecer que o namorado da Marina é japonês.

Tamada é daqueles namorados que já fazem parte da família. Amigo dos priminhos pequenos de Marina, professor particular de matemática de Ingrid, a irmã mais nova, colega de pelada do irmão mais velho e dos primos mais antigos. Até discute política com o sogro, toma cerveja com as tias e prepara o churrasco com os tios.

A cidade enfeitada ia passando pela janela do carro do garoto. Todo mundo de verde e amarelo. Ninguém percebia o japonês que dirigia o Audi pela W3. Tamada ia ouvindo Pearl Jam e levando uns biscoitinhos doces feitos pela avó. Chegou ao prédio, subiu, deu a vasilha com os biscoitos para a sogra, falou com todo mundo e o jogo já ia começar. Para Tamada, ainda deu tempo de ouvir cornetas e buzinas no ouvido e gritos de "Japa!", "Japonês safado!", "Que porra de blusa é essa?!" E o rapaz sorria amistoso.

O apito do juiz e a voz irritante do Galvão Bueno ressoaram pela sala. A partida começou. Silêncio. Todos se concentraram. Marina sentou-se com o namorado e aquela atmosfera tensa de copa do mundo fez a mão do casal se apertar mais. Todo mundo sentadinho, observando os lances. Ronaldo tentando a todo o custo fazer um gol. Cada pulo de gato do goleiro Kawagushi era uma batida mais forte no coração do único oriental daquela sala, daquela família, talvez até daquele prédio. Todo mundo xingava o erro da perna do atacante. Tamada xingava o time japa. Ninguém percebia.

32 minutos do primeiro tempo. Brasil bate o recorde de número de jogos sem levar gols. Ninguém percebe. Um minuto depois, gol do Japão. Um vazio parecia tomar conta da cidade. Nem Marina nem ninguém falavam nada. Tamada, xará do estudante, marcou um a zero para o Japão. A duas quadras podia se ouvir os gritos do Tamada namorado. "É Japão! É Japão! É gol do Japão! Quem é o 'japa safado' agora, porra!? Quem é? Quem é? Quem vai zoar dos samurais agora? Os Samurais! Gol dos samurais! Quem vai falar alguma coisa!? Quem!? Quem!? Quem!?"

Tamada foi parando de pular devagarzinho. O último "quem" foi quase sussurrado. A sala olhava para os olhos puxados do menino com reprovação. Nem Marina poupava o namorado. Na TV o Zico ainda aparecia comemorando. Tamada, o atacante, abraçava os amigos do time. Se a Croácia ganhasse da Austrália e o Japão do Brasil, os brasileiros não perderiam muito, e só a Austrália voltaria pra casa. Mas ninguém entendeu a euforia de Tamada, que ficou sentado ali, meio sem graça, mas feliz, sorrindo por dentro. "Favoritismo... Quero ver." O jovem pensava.

A virada mortal

Depois do gol do Japão, o Brasil acordou, como uns e outros andavam falando por aí. Tamada ouviu os berros e pulos, não só da família, mas do prédio, da cidade, uma vez após a outra, quatro vezes e mais os "olés". O outro Tamada ouviu a mesma coisa, só que num estádio, sob o olhar apreensivo de seus compatriotas. Os Tamadas sentiram uma vontade, como diria seu Nunes, sogro do Tamada namorado, "uma vontade arretada" de chorar. Mas o pequeno samurai morreu com honra. Junto com os 11 jogadores em campo e os do banco, e Zico e o resto da comitiva. E foi quatro a um para o Brasil. O Japão voltou pra casa e ninguém quis entender nada. Era só "Brasil! Brasil! Brasil!" no ouvido dos Tamadas. A festa terminou bem. Os namorados saíram à noite, os priminhos foram dormir e foi cada um pro seu lado. Mas isso não teve importância. Importante foi o gol do samurai, que fez um Japonês desafiar toda a família da namorada.

::: postado por Luiz C.: viernes, junio 23, 2006, horário de Luanda, África
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lunes, junio 19, 2006  

Epitáphio

Meus queridos netos, vovô está com saudades, e a vovó também...

Estou em New York, e se seus pais permitirem, poderão nos visitar nas férias. Vovó vai adorar. Podem ficar o tempo que quiserem, desde que não faltem aula.

Vou parar aqui por uns tempos. O médico me proibiu de trabalhar. Justo agora que ia começar como editor executivo do New York Times. Acho que é um complô. Eles querem me matar... me matar de tédio. Mas passo mais tempo com a Mia e nossos animaizinhos. Também tenho lido muito, e corrido. Enfim, vovô não para, e espera vocês para agitar muito mais.

Elizabeth, minha neta mais velha, o Central Park é lindo. Muito melhor que nos filmes que você gosta de ver. E tem rapazes bonitos também. Você ia gostar daqui. Se quiser vir para estudar depois que terminar a faculdade, poderá ficar conosco.

Mia está fazendo natação e trabalhando num orfanato. Ela adora esse lugar. Tem algo aqui, uma magia, não sei o que é, mas faz você não querer mais ir embora. Sinto muitas saudades de Paris, e também de Londres, sinto ainda mais saudades de Brasília, da Torre de TV, do Memorial JK, do Beirute, da droga da UnB... mas também fui contaminado. Não quero sair daqui. A avó de vocês só sente saudade mesmo das pessoas, se pudesse, traria todos pra cá.

Vamos à vocês. Do mais novo para o mais velho, igual a Mia gosta. Eu prefiro o contrário, mas ela também vai assinar, então...

Minha linda Vívian, seu pai nos falou de suas boas notas. Estamos muito orgulhosos de você. Vovó mandou dizer que é sua responsabilidade. Mas é por isso que precisamos receber parabéns de vez em quando, pelas nossas responsabilidades, não é mesmo? Seja aplicada, assim será fácil decidir o que fazer o dia que você chegar à universidade. Mas sinta a quinta série, cada gostinho, cada emoção, como um pedaço grande de bolo de chocolate, com muitas cores, e muitas camadas. Depois faça isso com a sexta, e depois com a sétima, uma de cada vez. Assim a vida tem mais sabor. Faça o melhor, porque o amanhã depende disso, mas viva o agora, para não ficar com a idade do vovô antes da hora. Se for, você vai ser muito jovem pra isso, e não vai ser nada bom. Faça bem tudo que depender de você.

Juliana, sua mãe me disse que você arrumou um namorado. Vovó quase pôs o coração pela boca. Estamos enciumados. Não é por menos, a última vez que nos vimos eu te carreguei no colo. Mas não vejo problemas. Você está crescendo, é normal. Tenha juízo, e estude muito, assim, ninguém poderá se meter no seu namoro. E siga seu coração, e não faça nada que não se sinta preparada. E volte a ligar para Mia, você não liga a dois meses e estamos com saudades. Você sempre foi a mais presente. Vou te mandar aquela maquiagem que você me pediu, mas só no seu aniversário. Mas falta pouco tempo, não é mesmo? Só três meses. Quero falar com seu namorado. Marque uma hora para nos conectarmos. Ok?

Pedro. Pedro, Pedro, Pedro... Sempre gostei do som do seu nome. Já te disse isso umas mil vezes, mas é o nome do amigo do vovô que morreu na cobertura da guerra do Iraque. Era quase tio do seu pai. Sua avó quer saber se você já arrumou uma namorada. Eu quero saber se você já colou os olhos no namorado da sua irmã. Já? De um bom susto nele, ok?
Seja sempre honrado e corajoso, fale a verdade e cultive o silêncio. Mantenha os olhos fixos naquilo que você deseja, e não desvie por nada nesse mundo, assim você terá tudo que quiser. Não deixe que outros te digam o que sentir, nem acredite nos que te menosprezam. Aposte em você mesmo, e aposte alto. Se seu coração te manda correr, corra. Seja um esportista. E olhe sempre em frente. O tiro te liberta. Você sabe do que eu estou falando. Estamos torcendo por você, e gostamos muito quando você nos mandou as fotos da sua vitória na escola. Quer uma sugestão? Faça educação física.

Elizabeth. Minha neta mais velha. Futura jornalista. Sua avó já está me mandando parar de puxar seu saco. É ótimo receber suas cartas. E concordo com o que você me falou sobre "e-mails" na última. É muito melhor ficar decifrando a letra da pessoa amada, não é mesmo? Mia manda lembranças e me mandou ligar para todos os jornalistas do DF para te arranjar um emprego. Não sei quem puxa o seu saco aqui... Não vou fazer isso. Mas pode contar com o vovô para começar a trabalhar. É só me falar do que precisa. Lembre-se que basta imaginarmos onde queremos estar, e lá estaremos. Sua mãe me disse que você começou um estágio numa assessoria. Acho que é um bom começo. Lembre-se sempre de que, embora digam o contrário, você é completamente responsável pelo que escreve, e só assim poderá haver um bom jornalismo.

Nós amamos vocês e estamos com muitas saudades.

Otto Stanislaw e Laura Stanislaw
Vovô e vovó

::: postado por Luiz C.: lunes, junio 19, 2006, horário de Luanda, África
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domingo, junio 11, 2006  

O terminal...

Juliana despediu-se de sua mãe e entrou no ônibus. A menina tinha lágrimas nos olhos, e não conseguia esconder. Ronaldo acenou para a sogra e apertou o pulso da mulher de modo cuidadoso, e puxou-a para dentro do ônibus com delicadeza. Dona Mariana segurava as mãos bem apertadas junto ao peito, os olhos castanhos bem arregalados e com a boca entreaberta, respirando de modo ofegante. O motorista deu a partida e o motor roncou aquele som que toca nas rodoviárias de todo o Brasil. Parece o som da vida engolindo as pessoas. O som da saudade. O coração da senhora parecia que ia explodir.

Ronaldo colocou as malas no bagageiro acima do lugar reservado e o violão nos pés. Juliana sentou-se em silêncio, do lado da janela, olhando pra frente com um olhar triste e fatal ao mesmo tempo. De dentro do ônibus, a janela escura mostrava o mundo como se fosse uma televisão: dona Mariana começando a chorar, algumas pessoas acenando ao longe, um grupo de meninas com malas grandes do lado, um senhor e uma senhora de idade, mais velhos que a mãe de Juliana, de pé, na fila das passagens. A cena ia mudando, a "televisão-janela" foi se afastando do terminal rodoviário e Ronaldo e Juliana ficaram com o cochicho dos outros passageiros e com suas mochilas grandes, e com o destino misterioso, observando-os de dentro da cabine do motorista.

Era fim de tarde. O sol tocava o horizonte com a ponta dos pés. As vísceras do casal pareciam se liquefazer de ansiedade. Subindo o país, em direção ao amazonas, sem saber o que encontrar lá, sem saber se seriam descobertos e pegos no caminho. Sem saber do amanhã. Fugindo como se fossem bandidos. Era assim que partiam do Planalto Central. É assim a vida dos revolucionários.

O Ônibus contornou Brasília e o sol se pôs. Dona Mariana voltou para Taguatinga e foi arrumar o apartamento, rezando para que seus filhos não se perdessem pelo caminho, pela estrada, pela vida. Ronaldo era como um filho para Mariana.

O sol se punha através da Comercial Norte. O nono andar era o alto de uma torre mal aparentada. O sol iluminava a sala e trazia a imagem de Juliana estudando e de Ronaldo sentado no chão, feito um menino, vendo TV. As coisas pequenas de ter aquele casal complicado em casa eram preciósicimas.

Agora, preciosícimas lembranças.

Depois que Alcebíades morreu, Mariana ficou só com Juliana. Sem o marido, a mãe foi pai, viveu da aposentadoria do finado, e odiou quando a filha começou a namorar aquele estudante de jornalismo cabeludo. Curso de vagabundo, cara de bandido, cabeça de "sem juízo". Mas Juliana era teimosa. Não só namorou, como se engajou nos passos do namorado. Muita panfletagem, muito estudo, muito trabalho, muita aula, idealismo, voluntariado, além dos estudos de enfermagem e dos trabalhos para ajudar em casa. Tirava fotos e datilografava trabalhos.

No final, Ronaldo saiu de casa, um apartamento grande em Águas Claras, deixou os pais e o irmão, e foi morar com a sogra e a ainda namorada. Começou a trabalhar como correspondente do Zero Hora, depois foi para o JBr, depois começou a fazer pós em relações internacionais e a trabalhar na assessoria da UNICEF. Praticamente sustentava os estudos de Juliana, enquanto Mariana cuidava da casa. Oficializaram o casamento. Tudo isso junto com o trabalho da revolução.

Futuro incerto...

Quando a coisa explodiu, foi um massacre. Amigos desaparecendo, traidores se revelando, por todo o país os membros do movimento foram queimados socialmente, procurados como cães e incriminados como exemplo para que os ainda não tivessem aderido à revolução. O pessoal da logística foi rápido no DF. E vários membros puderam mudar de identidade e de estado antes de serem pegos pela repressão.

Dona Mariana, que no começo era contra, agora ajudava a esconder jovens. Pagou um preço alto. Perdeu a filha e o genro. Não perdeu completamente, mas era pouco provável que voltassem a se ver naquela vida. Mesmo assim continuou acreditando na causa, e fingindo que não sabia de nada, e freqüentando a igreja as quartas e aos domingos.

A polícia bateu no apartamento da comercial aquela noite, depois da partida dos dois. Mariana chorou e ficou perguntando para os policiais sobre a filha, como quem não soubesse de nada, e mostrou o retrato do marido, tudo enquanto oito homens mal encarados reviravam o aparamento de dois quartos. Mariana gritava e atrapalhava a investigação, com lágrimas de velhinha desolada. Cinismo puro. Depois que a polícia foi embora, a mulher chorou de verdade, baixinho, sentada no sofá, sem acender as luzes. A noite já tinha chegado.

Na estrada, o ônibus foi parado numa blitz e Juliana acordou já assustada. Ronaldo estava em pé ao lado dela, mexendo na mochila grande preta. Tirou os documentos e pediu para Ju ter calma. Sentou-se ao lado dela e ficaram de mãos dadas, esperando.

A polícia entrou e explicou aos passageiros que estava procurando um casal. Tinham mais de três no ônibus.

"É terrorista, é gente perigosa..." explicou o policial. Os passageiros tiveram que mostrar os documentos. A polícia identificou um por um: Marineuza Paz, Rodrigo Amarante, Larissa Andrade Botelho e Rafael Silva Botelho, Clara Mendonça, Regina Lastra, Eurico Guimarães, Evaristo Galois, Marcio Dantas e Rodrigo Dantas, Carlos Furtado e Regiane Bontempo, Ronaldo Henrique Stacciarine, Juliana Rodrigues Stacciarine (...).

O policial se deteve em Ronaldo. Um outro policial se aproximou, outro tirou a arma e ficou apontando para o chão. Juliana olhava assustada e pálida. O sargento pediu para Ronaldo se levantar. Revistaram Ronaldo. Tiraram à carteira de identidade dele e levaram para fora. O jovem se sentou do lado da esposa, tirou um bolo de notas do tênis e colocou no bolso dela junto com uma carta meio amassada. A menina abraçou o marido. Não trocaram palavras.

Minutos depois, um dos policiais voltou e devolveu o documento para Ronaldo. O policial perguntou se ele tinha cigarros. Ronaldo deu três. O soldado, que agradeceu, saiu e disse ao motorista para partir. Juliana e Ronaldo respiraram aliviados. Juliana sussurrou baixinho no olvido de Ronaldo: "Acho que estou grávida".

::: postado por Luiz C.: domingo, junio 11, 2006, horário de Luanda, África
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-Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃ. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

-Todas as imagens por Luiz Calcagno, exceto livros.

-Hasta siempre...

Luiz, 23, jornalista.
Latino-americano de espírito, Luiz Calcagno Fettermann nasceu no dia cinco de outubro de 1982. Desenvolveu este blog com a finalidade de publicar seus textos e examinar a progressão técnica do que vem criando desde os 12 anos. Este espaço é um laboratório literário pessoal. A permanência dos textos está sujeita às alterações de humores do autor.
Mariana Proust, Brasília, 25 de Maio de 2005

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