[~#+]... Casa das Mentiras ...[&*^]


-El Blog esta activo desde 18 de Marzo de 2003.

-Biene viendo...


Brasília, Wednesday, May 10, 2006 :::
 
O vento...

Juliana olhando pela janela do quarto andar. Estava apenas pensando. Os meninos conversando embaixo do bloco, Artur, Raul e Carine. Do outro lado da rua, Moisés e Vitor. O céu escuro de nuvens. Já passou março, mas vai chover assim mesmo. Brasília... Ontem mesmo estava um sol de rachar. Juliana sente o alento vazio da cidade na brisa úmida sobre a copa das árvores. Os olhos da menina fecham-se com uma rajada de vento. Ela ouve então Aeolus sussurrar ¿lhe ao ouvido, frio e próximo.
- Juliana... Juliana...
"O que você quer? Como você sabe o meu nome?", Juliana pensou.
- Eu sou o vento. Eu sei de tudo, estou em todos os lugares. Sou eu quem leva as palavras aos ouvidos, e também levo os telhados das casas. Sou eu quem acaricia cabelos, Juliana, e jogo pessoas contra muros a uma velocidade mortal.
Juliana abriu os olhos com dificuldade. A árvore abaixo da janela, um jovem flamboyant, parecia dançar. O vento ficou mais forte.
- Está me desafiando?
Juliana sorriu e pôs os óculos. Vitor e Moisés correram para debaixo do bloco. Não se ouvia mais a voz do pessoal. Juliana ficou com os olhos abertos sob a proteção dos óculos. O vento ficou mais forte. Juliana sorriu. Os papeis na sala de Juliana começaram a voar em círculos atrás da menina. Poesias e mais poesias dançavam no meio da sala, sobre a mesa. Juliana continuava na janela, fria como o vento. O telefone começou a tocar insistentemente.
- Juliana!
Ululava Aeolus com força.
- Juliana, quem sou eu?
- Isso é algum teste?
Dessa vez Juliana falou, como se fizesse diferença falar ou pensar, e falou alto. E algumas folhas de papel voaram pela janela e planaram sobre a L2 Sul. O telefone tocava: "triiiiiim, triiiiiiiim...".
- Apenas responda! Quem sou eu?
- Você? Você é o vento, oras... E provavelmente um fruto da minha imaginação.
- Menina arrogante! Eu te embalei nos braços quando caíste daquela árvore, na fazenda. Lembras? Eu quebrei a janela da sala de parto, no exato momento do seu nascimento. Sou o vento, teu padrinho. Agora me responda, quem é você?
- Sou... sou Juliana.
- Resposta errada!!!
Juliana ficou com medo. A janela trepidava e debatia-se. Todo o apartamento de Juliana ventava. Portas se batiam com veemência. Juliana segurou em suas próprias mãos, apertando os dedos uns nos outros. O telefone parou de tocar por alguns instantes, mas depois voltou a tocar.
-Sou Juliana. É só o que sei responder.
- Não! És Juliana, afilhada do vento. E ainda mais. Foste Lucius em Roma, Mepiné, no Egito. Foste gigante e ciclope. Tem vidas e mais vidas sobre o teu nome, Juliana.
- E o que você quer de mim, senhor vento?
- Você está só. Desde que sua mãe se foi, você se sente cada vê mais só, tendo que responder sozinha as perguntas que te perturbam. Você tem amigos, parentes, mas está só. Ninguém faz as mesmas perguntas, nenhuma resposta mais é capaz de te consolar. A noite me contou que você fica fazendo indagações no seu quarto, ao invés de dormir. Quer saber quem é você realmente. Você não tem a resposta da minha pergunta!
- Não! Não tenho!
Juliana chorava. As mãos da menina apertavam o parapeito da janela. A menina inclinava-se para fora, desafiando a força da rajada que a envolvia. O casaco preto de Juliana parecia puxá-la para trás. Os cabelos castanhos da menina também. As bochechas rosadas de Juliana pareciam leite. Juliana apertou os olhos com raiva. O telefone parou de tocar de novo.
- Se não sabes que és não me responda! E não adianta ficar brava, menina mal criada. Vim te buscar. Vou te levar para te conhecer. Venha comigo. Não há nada em Brasília para você. Semana que vem é Carnaval, você nem terá o que fazer. Vai ficar ilhado na libélula do Brasil. Vem comigo Juliana. Vou te levar até você?
- Não posso. Tenho uma vida. Não sei voar também.
- Não se preocupe com isso Juliana. São só folhas secas.
Aquilo pareceu fazer um sentido incrível, mas Juliana perguntou assim mesmo.
- Folhas secas? Como assim, folhas secas?
O telefone voltou a tocar. Então, de súbito, Juliana, seus cabelos com cheiro de xampu de camomila, seu perfume de amêndoas, seus olhos de jabuticaba, seus lábios de fel, suas mãos pequenas como as de uma princesa, e grossas como a de um lenhador, Juliana, toda ela, com suas pernas de mulher e seus seios, e suas unhas roídas, e seu piercing no umbigo, tudo isso, com todas as folhas de papel que rodavam pela sala, tudo virou um monte de folhas secas. As folhas que foram Juliana saíram voando pela janela e se misturaram com as flores do flamboyant. E as outras folhas pousaram pelo apartamento da menina, espalhando um ar de abandono por tudo que havia naquele apartamento. O telefone continuou tocando, e uma inexplicável calmaria tomou o ambiente.
Juliana virou ventania. Foi com o vento encontrar consigo mesma. Só sobrou uma folha de papel em cima do móvel da sala...

Vento...

Vento que ulula pelas ruas,
Vento que bagunça meu cabelo,
Vento que tudo trás e tudo leva,
Vento de verdade e de brinquedo,
Vento venha me levar daqui.

Vento que á amante das folhas,
Vento que é carrasco da cidade,
Vento sem magia nem cultura,
Vento misterioso que ulula,
Venha me levar daqui, meu vento.

Vento que possui as respostas,
Mesmo que não possua nenhuma delas,
Vento que vem cheio de magia,
Vento que desfaz as aquarelas,
Venha me levar daqui... Pra outro lugar.

Sou só uma gaivota.

Posición:

::: postado por Alpha.Boy.Lui às 12:44:20 AM, horário de Luanda, África


-Os personagens citados nos textos SÃO FRUTOS DE MINHA IMAGINAÇÃ. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

-Todas as imagens por Luiz Calcagno

-Hasta siempre...





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A morte é transformação.

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